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Chuva no sertão

seca7

Ouço o tiro,
me viro,
me reviro
do avesso,
de fome
sem nome,
esqueço,
da roupa na corda,
da borda do berço,
enfim desisto,
tropeço…
Não mereço.

Me derreto,
evaporo,
faço um chuá
pra lá de sonoro,
voo bem alto,
desapareço.

Na volta me olho,
o sorriso sem dentes,
Tô rindo de quê?

Olho
O gado deitado,
desmaiado,
morto,
tudo torto,
vidas retorcidas,
entre moscas e feridas.

Levanto a cabeça,
Abro os braços
Como se recebesse
uma benção
me molho,
com o carinho
imaginado
da chuva,
escorrendo
pelas mãos
desesperadas,
esbranquiçadas,
do mato
sem forças,
sem vida,
desse sertão.

Anderson Porto