O dia que conheci Nico Lopes

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“Tá fazendo o quê?”, disse minha amiga ao telefone. “Tás a fim de passar um fim de semana num sítio?”. “- Bora…”, rs… E lá fomos nós para Viçosa, em MG.

Na rodoviária de Niterói aquele último confere no mochilão para ver se tinha tudo que precisava. Tava levando quase uma casa, pois era bem capaz do povo acampar por lá.

Partimos para Belo Horizonte e de lá para Mariana. Lembro que pensei “Poxa, na volta bem que podíamos dar um pulo em Ouro Preto”.

Chegando em Viçosa fomos direto para o apê “república” onde a irmã dela estava morando. Apartamento só com mulheres, tudo organizado e limpo, reparei. Depois pensei: “Ih, onde que vou dormir?”.

Cumprimentei as meninas, todas de babydoll e roupas frescas pois era um dia de sol. Saca aquele pensamento de “hummm…”? rs… Pois é.

Cheguei na janela… “De frente para o bar, olha que beleza… Tô feito!”. 😄 Foi falar e passa um trem apitando… “Nuss… aqui passa trem?”. Já tava quase falando mineirês! rs…

Descemos para tomar aquela gelada pós viagem, ocupamos algumas mesas e ficamos lá bebendo e socializando, esperando o restante do pessoal que ia pro sítio chegar.

Foi anoitecendo e o pessoal chegando. Mó multidão no bar. Alguém trouxe um violão, uma galera se juntou para cantar, cerveja atrás de cerveja alguém acendeu um baseado, outro alguém querendo fazer um churrasco e tinha uma galera batendo pé e reclamando “gente, deixa para fazer isso lá no sítio, vamos partir…”.

Partimos. Uns 30, 40 minutos de viagem, não sei ao certo. O que sei é na hora de abrir a porteira a pessoa que tinha alugado esqueceu a chave do cadeado.

Procura daqui, procura dali, eu perdido, pois não conhecia praticamente ninguém, fora aquela turma de meninas da república, que tinha acabado de conhecer… Alguém tinha que voltar para buscar a chave.

A menina que tinha alugado o sítio era lá da república. Não lembro o nome dela. Só sei que entrou no carro e me chamou, “Anderson, vamos lá comigo?”. E fomos.

Deixamos o pessoal esperando no portão junto com as compras. Com o carro mais leve fomos e voltamos rapidinho, não deu nem 1 hora. Ela subiu, pegou a chave, o tempo certo que levei para pegar mais uma cerveja no bar, e voltamos.

Chegando no sítio a galera já tinha entrado. Foram passando as compras pela cerca e colocaram tudo na varanda. Já tinham até aberto uma janela, entrado na casa e ligado a geladeira, que ficou lotada de cervejas e refrigerentes.

Uma menina, com visual meio dark, cabelo roxo e meio gordinha, tava entalada na janela e me gritou “Ei menino, psiu, me dá uma ajuda aqui! Anda!”. Fui lá, dei “pepé” e ela meio que tombou lá pra dentro. Começou a xingar alguma coisa, não dava para ouvir, enquanto a que tinha alugado abria a porta da sala, que estava sem lâmpada. Depois descobrimos que só tinha luz na varanda.

Com o pessoal meio sem saber o que fazer, sugeri “bora fazer uma fogueira?” e fui procurar madeira. Uns dois ou três caras gostaram da ideia e ajudaram. Logo a gente juntou lenha suficiente e começamos a procurar álcool. Ninguém tinha lembrado de trazer.

Estava uma noite bem bonita, sem lua e com uma caralhada de estrelas, então o pessoal foi se juntando na área perto da cozinha, o cara do violão começou a tocar Legião e logo a festa tava formada.

Lembro que achei engraçado ver as meninas de calça jeans e bota, com aquele chapéu. Lá pelas tantas eu mesmo tava de chapéu, rs… Tinha levado só uma camiseta e começou a esfriar.

Passado um tempo já tava ficando meio zoim e resolvi comer alguma coisa. Me levantei e fui na cozinha. Procurei daqui e dali e nada… Ou povo tinha escondido a comida, ou já tinham comido tudo. Só tinha uns farelos de pão em cima da pia. “Esse povo anda fumando muito!”, pensei…

Abri a geladeira e até as cervejas estavam acabando. Tinha uma garrafa de Coca Cola pela metade. Peguei, enchi um copo e bebi. “Nuss! Que merda! Tá sem gás”. Abri o congelador, peguei umas pedras de gelo – (“será que tem vodka?”) – coloquei no copo, botei a garrafa de refri debaixo do braço e fui lá pra fora.

Sentei num tronco, tomei mais uns goles, entoquei a garrafa num canto e fui dar uma andada. Acabei achando um galpão e lá dentro um monte de palha seca. “Och, com isso dá para acender a fogueira!”, sorri!

Trouxe um punhado, coloquei no meio das madeiras, coloquei algumas umas por cima. Peguei mais um pouco, recheei os buracos e acendi. O povo na varanda assistindo. Catei mais um pouquinho, fiz uns bolos dobrados e fui atiçando o fogo, que aos poucos foi pegando e logo a fogueira começou a ficar bonita, com chamas passando de dois metros.

Aí uma galera se animou, juntou as cadeiras perto do fogo, alguém foi lá catar mais palha e logo todo mundo tava catando palha e jogando na fogueira. E o fogo subindo!

De repente o caseiro do sitio aparece no portão, gritando! “- Gente, não usa essa palha não. Essa palha é para cobrir a plantação de alho!”. E o fogo subindo! Subiu tão alto que pegou num dos fios de energia. De repente fez aquele baita barulho “BUUUUMMM!” e lá se foi a luz da varanda.

Bem… Acontece. Rs… Tudo certo lá com o caseiro, a festa continuou. Sentei perto da fogueira para pegar a garrafa de refri, que tinha esquecido, e quando fui colocar no copo um cara me fala: “Cara, o que você está fazendo? Isso aí não é Coca não… Isso aí é chá de cogumelo!” e começou a rir.

“Ih…”, pensei lá comigo… Agora que você fala? Agora já era… Tomei uns 6 copos dessa porra…”. E fiquei ali vendo as chamas da fogueira, alguém ligou o som…

Dali a coisa toda foi ficando meio “nublada”. Não lembro ao certo. Muitas imagens desconexas. O que sei é que voltei pra Terra com minha amiga batendo no meu ombro. “O que você tá fazendo aí?!”.

Ao meu redor um monte de cascas de tangerina, talvez umas 2 dúzias. Acho que verdes. Eu estava sentado no meio de uma plantação de tangerinas, no topo de um monte perto do pessoal, e respondi:” Estou esperando o dia amanhecer. Olha lá o sol…” e apontei para a luz que estava vendo…

“- Aquilo é a luz de uma casa na montanha, Anderson! Bora lá que a festa tá bobando! Tem uma amiga que quer te conhecer!”

Voltamos pro meio do povo e adivinhem quem que tava a fim de mim? A que tinha alugado o sítio. Sorri! Só que a gordinha dark, me parece, também estava, pois saiu lá de onde estava e veio me abraçar, agarrando no meu pescoço. Para piorar, tinha um cara lá que tava a fim da mulher do sítio…

Enfim, procurei uma água para beber, que meio que me deu aquela “acordada” e pensei “acho que vou sair fora, não vou ficar nessa confusão não…”. Avisei minha amiga que estava indo embora e meti o pé.

Dali desperto novamente já na linha do trem, andando… Saí do sítio acho que 3 da manhã, creio, e já tinha andado um bom pedaço. O dia estava amanhecendo. Suava em bicas e ainda estava meio zonzo. Ao lado do trilho do trem un arbustos de mata fechada, então nem tinha como voltar.

De repente começo a me tremer. Uma tremedeira esquisita daquelas e quando mais eu andava mais ia aumentando. Pensei “ih, devo estar passando mal”… e resolvi parar. Dei aquela respirada, com a mão na cintura, e quando dou aquela olhada para trás, para ver o caminho que já tinha percorrido, vejo o semblante de um baita de um trem fazendo “PÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉMMMMM…”.

Caralhos, que susto! Me fez pular dali dos trilhos voando pra cima de uns arbustos. Só senti o “aiiii…”. Puta merda! Os arbustos cheios de espinhos!! Fiquei ali, esperando o trem passar, sem praticamente poder me mexer. Depois que passou fui saindo devagar e consegui ver o estrago. A camisa toda rasgada, cheio de espinhos pelo corpo… Tinha espinho até nas bochechas.

Bem… Fazer o quê? Respirei e continuei andando. Passei  por umas casinhas edificadas perto do trilho do trem e fui seguindo por uma estradinha que o margeava uma plantação de milho. De repente se juntou um senhor de idade, cabelos brancos, que também caminhava em direção ao centro.

Depois de rir muito d’eu contando o que tinha acontecido, me deu as coordenadas que faltavam para eu chegar na república. Me contou também que ele adorava milho, por isso vinha andar ali perto daquelas plantações. Nos despedimos com ele me dizendo “-Cuidado com o coração!” e continuei andando.

Entrei na cidade ainda seguindo o trilho do trem, pois lembrava que passava ao lado do bar. Era quase meio-dia quando cheguei. De longe o pessoal do bar me avistou, ainda com a camisa suja de sangue, alguns vieram me perguntar o que tinha acontecido… “Bem… Deixa eu pelo menos tomar uma cerveja, minha boca está seca!”.

A minha amiga me avista da janela e vem falar comigo. Rimos muito de tudo e no meio daquilo tudo alguém me fala que aquele dia também era dia de festa, pois era o dia da “Marcha de Nico Lopes”… Tava com preguiça para entender o que eles estavam falando e a bem da verdade eu queria mesmo era descansar, pois tinha andado pra caralho…

Subi para a república, tomei um banho, deitei no sofá da sala debaixo de um ventilador e me preparei para dormir. A TV estava ligada e passava uma reportagem no jornal da tarde sobre a tal festa do dia.

Lembro que antes de cair no sono, pensei algo do tipo: “Acho que conheço esse cara… Ele não me é estranho…”, olhando com os olhos semicerrados as imagens da TV.

Dormi.

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O dia em que quase morri

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Estava eu lá no sítio com meu filho, fazendo a inspeção das plantas, vendo quais tinham conseguido sobreviver depois do incêndio. Sim, pegou fogo em tudo.

O fogo veio lá de longe, de pastos longínquos, queimando todo o mato já ralo pela colheita da boiada e sendo empurrado pelos ventos. Veio e queimou todo o trabalho de quase 2 anos de plantio! O vizinho até tentou apagar em vão e veio me contar.

Eu via aquilo e queria chorar, mas fiquei me contendo por causa da presença do meu filho, que observava minha reação. Como tinha trazido mais mudas para plantar então pensei: “Vou aproveitar as cinzas, que servem de adubo, e plantar novamente. Foda-se!”.

Desembarquei as ferramentas o carro, coloquei as mudas na sombra e fui procurar locais ideias para plantá-las. Achei um perto da cerca e pensei “ali fica bem um pé de maracujá”. Só tinha que limpar um pouco o local.

Trouxe a muda para perto, peguei o facão, pedi para que o filhote se afastasse e comecei a limpar o que tinha sobrado de mato. Logo na primeira facãozada voou algum bicho da moita e me picou no rosto. Com o calor que tava nem senti direito. Continuei. Mais duas ou três facãozadas, voa o bicho de novo e me dá mais umas duas ferroadas. Pensei “pultaquil…” e em seguida me senti estranho.

Comecei a suar mas não de calor, tava com cara de reação às ferroadas. Era um bicho amarelo, tipo marimbondo… Meu filho me olhava, rindo… Falei pra ele “Ô ôu, parou a brincadeira. Deu merda.”. Comecei a me coçar todo, pés, mãos, costas, tudo. Sentia coceira até debaixo da unha. “Filho, vamos embora que estou passando mal. Essas ferroadas me ferraram”.

Guardamos tudo que deu, entramos no carro e seguimos para a rodovia. No meio do caminho, ainda na estrada de terra, minha vista começou a ficar esquisita. Estava tudo ficando BRANCO! Uma claridade absurda… Eu mal conseguia enxergar. As pupilas, pensei depois, deviam estar super dilatadas.

Para entrar na rodovia tive que pedir auxílio pro filhote: “Vê aí se vem carro porque não estou enxergando nada.”. Entramos na rodovia mas andando à 20 km/h. Quando não deu mais pra dirigir passei pro acostamento e parei. Liguei o alerta e avisei: “Se eu desmaiar está aqui o telefone. Ligue para a emergência ou para sua vó e passe as coordenadas de onde estamos”.

Eu suava frio, já não enxergava mais nada. A sensação era de que estava morrendo. Encostei no banco e fiquei pensando na situação, pois estava preocupado com a segurança de meu filho… E foi aí que finalmente veio a luz!

Pensei: “devo estar tendo um choque anafilático, pela alergia às ferroadas daquele bicho. Preciso de adrenalina!”. Agora, onde que eu ia arrumar adrenalina ali, naquela situação? Ora, ora, oras… rs…

Botei o óculos de sol, liguei o carro, acelerei o máximo que pude e voltei pra estrada. Ao me forçar a sentir medo por causa do risco que estávamos correndo, a adrenalina veio. Fez efeito em segundos. O suficiente para que após uns 2 km a vista voltasse a funcionar.

Quando saímos da estrada eu já estava praticamente normal de novo… Nem precisei de atendimento médico.

O que aconteceu depois? Bem… Tô aqui escrevendo isso, não estou? Então… rs…

Anderson Porto