Liberte-se dos contratos familiares

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LIBERTE-SE DOS CONTRATOS FAMILIARES
CÓDIGOS QUE IMPEDEM QUE SEJA SI MESMO

Os contratos familiares são uma espécie de “códigos” situados no mais profundo de nossas mentes, em forma de crenças e todo tipo de inibições que paralisam.

Marianne Costa conta que em determinado momento de sua vida escreveu num papel de pergaminho: “sou una fracassada”; depois, assinou-o com uma gota de seu sangue e o queimou.

No lugar em que fez isso, plantou uma flor e começou a desenhar sua realidade liberada dessa maldição (É um ato ‘psicomágico’, onde nos liberamos desses códigos que recebemos de nossa família).

Um contrato é um acordo entre duas partes que se comprometem a dar algo e a receber algo em troca. Mas nem todos os contratos estão no papel, nem sequer são verbalizados ou tampouco estão no plano da consciência.

Mais ainda, como no caso do nome, há contratos que aceitamos em desigualdade de condições, porque se ‘selam’ na mais tenra infância e a criança intui que o seu não cumprimento implica não ser querido, o que significa a morte.

Nosso cérebro mais primitivo nos dita a ordem de obedecer quando a ameaça é ser expulso do clã.

Estes contratos podem afetar nossos quatro egos:

Exemplos de contratos intelectuais:

Muitas das crenças que carregamos são contratos que mantemos com nossa árvore genealógica, ideias que nos transmitiram desde nossos bisavós e que não podemos questionar (Devemos nos desfazer de qualquer crença que não seja bela e útil para nós mesmos).

a) “Você será advogado como os homens prósperos dessa família” – (Em árvores genealógicas onde o artista é considerado um morto de fome, e que realmente não pode fazer mais nada).

b) “Nessa casa se fala a língua cristã” – Não me venha com ideia de estudar idiomas … você só tem que falar uma língua: a materna.

c) “Você é desajeitado como sua mãe” – Uma profecia que atua como maldição e acaba se cumprindo.

d) “Na vida temos que deixar as coisas da forma como as encontramos” – Sinal de que a árvore parou de crescer e se desenvolver.

e) “Um filho nunca deve superar seu pai” – Uma loucura absoluta que se conecta com a neurose do fracasso.

Os contratos intelectuais são como as “ideias irracionais” descritas por Albert Ellis, raízes de nossas emoções perturbadas e comportamentos desajustados.

A psicogenealogia apresenta sua famosa e em muitos casos efetiva RET (Terapia Racional Emotiva), no sentido de que a família configura um esquema de crenças tóxicas que adotamos por lealdade e que se movem em quatro eixos fundamentais.

1) Se você não tem o que precisa, morre (“Se meu noivo me deixar, eu morro”). A herança tóxica é confundir necessidade com desejo. Se não comer, talvez morra, mas se quer um noivo e não o tem, prossegue-se vivendo…

2) Isto é terrível (“É terrível que eu tenha que cancelar minhas férias”). Excesso de autojulgamento. Não há, de fato, nada categoricamente mau o bom. Há fatos que nos causam maior ou menor dor. Se classificarmos os fatos dolorosos numa escala de 1 a 10 e no 10 colocamos a morte de um ser querido, que valor daremos ao cancelamento das férias?

3) Não suporto (“Não suporto a solidão”). Há situações que matam, insuportáveis. Crer que algo seja o limite entre a vida e a morte nos faz sentir agonizantes cada vez que isso acontece. Isso nos leva a preferir uma desastrosa relação amorosa à solidão, já que a solidão está proibida pela árvore, porque significa se aproximar da morte.

4) Se acontece algo desagradável, há um culpado e ele precisa ser condenado. A família nos ensina a julgar e buscar culpados em quem descarregar a responsabilidade do que aconteça, ou a culpar-nos a nós mesmos. Os acontecimentos são uma confluência de fatores, nada tem uma causa única. Se nos sentimos culpados por algo, o melhor remédio é uma fórmula com três elementos: aceitação, reparação e aprendizagem do acontecido, para evitar a possibilidade de repetir o mesmo erro no futuro.

Exemplos de contratos emocionais:

Costumam surgir em formato de inibições emocionais.
Muito associados aos níveis de consciência infantis…

a) “Não cresça” – “Quando ficar maior, um dia vai abandonar seus pais”. Esta ordem vai mantê-lo na idade emocional de 10 anos para o resto de sua vida.

b) “Nós torcemos pelo Madrid” – A partir do seu primeiro mês de vida, a criança já é membro de um clube de futebol. Quando crescer, não terá escolha, senão gostar de futebol e se não torcer para o Madrid, será considerado um traidor ou um doente.

c) “Não seja estúpido, não arranje namorada” – Fique com a mamãe … ela não te trairá.

e) “O casamento é para toda a vida” – Ninguém jamais se divorciou nesta família, nós somos muito religiosos.

Os contratos emocionais nos ligam fortemente ao passado e fomentam relações baseadas na dependência emocional. Dissolver estes contratos é abrir afinal a porta da liberdade de amar, num nível de consciência superior.

Exemplos de contratos da libido:

Aqui estão todas as inibições sexuais e criativas:

a) “Teatro-música-pintura são perda de tempo” – É como dizer que você não deve dedicar-se a coisas que não são rentáveis …

b) “Essa relação não combina com você” – Podemos perguntar: quem realmente não combina com você?

c) “Você vai se casar aos 25 anos e 26 terá sua única filha” – Este poderia ser um contrato inconsciente que se repete de geração em geração. Um projeto que árvore nós dá.

d) “A mulher que expressa desejo sexual é vagabunda” – Se o sexo da mulher é apenas um instrumento de procriação, se deve proibi-la de ter prazer com sua energia da libido e, finalmente, com a criação e a vida.

A proibição da homossexualidade e das práticas sexuais que não existem no diretório da árvore, são também contratos, cuja violação nos bloqueiam a libido ou nos fazem sentir culpados e merecedores de punição se não “sairmos ao molde”.

Exemplos de contratos materiais:

Inibições econômicas.

Precisamos encontrar as características que nos afastem da violência, medo e culpa…

a) “Você é idêntico ao seu avô” – E assim um dos ancestrais toma posse do filho.

b) “Não aperte os botões, pois vai quebrá-los” – Quando não o deixam tocar em nada é porque você não tem espaço.

c) “O dinheiro é pecado” – Se acreditamos que o dinheiro é sujo, quando o ganhamos isso gera uma grande quantidade culpa.

d) “Quem se arrisca não petisca”, “Mais vale um pássaro na mão que dois voando”, “Mais vale o mal conhecido que o bem por conhecer” … Abandonar território conhecido é uma deslealdade imperdoável e temos um medo ancestral em não ser readmitido no clã.

Tudo isso nos exorta a nos acomodarmos com um parceiro que já não contribui em nada, um trabalho insatisfatório, uma casa que não é um lar e também a um banco, um grupo de amigos, etc.

Instalados num território para sempre, porque fomos ensinados que correr riscos é perder tudo, ao invés de sermos encorajados a seguir nossos desejos como um tão sábio de caminho de transformação.

Os contratos se cumprem por lealdade, mas também por medo das consequências.

Digamos que haja um medo de punição, de que essas previsões (maldições) se realizem: “Se se divorciar, você ficar mal vista”, “Se você se tornar um artista, viverá na pobreza”.

Um ato psicomágico para curar esse tipo de medo do fracasso embutido pelos pais, consiste na representar estas previsões, metaforicamente, diante deles.

Alejandro Jodorowsky nos diz em suas 10 receitas para a felicidade, “não há maior alívio do que começar a ser o que você realmente é. Desde a infância, nos impõem destinos alheios. Vale lembrar que não estamos no mundo para realizar os sonhos de nossos pais, mas o nosso.”

Fonte: [ De Coração a Coração ]

Suspeito que estamos…

por Nuno Ramos

Há tempos venho tentando responder ao convite para escrever nesta página três. O jornal me propôs vários temas, mas nunca me senti preparado para dar conta de nenhum. Então resolvi escrever sobre o que não sei, mas suspeito.

Suspeito que o tema primordial e decisivo da sociedade brasileira sempre tenha sido, e seja ainda, a violência. A vida no Brasil nunca valeu muito. Hoje vale ainda menos. Giramos em torno disso como um animal preso ao poste. Suspeito que o sentimento de agoridade que nos caracteriza faça fronteira com essa violência. Suspeito que precisaríamos, como contraponto, de maior lentidão e inércia.

Perto da violência, suspeito que tudo saia do lugar. Noções como alto e baixo, direito e esquerdo, bem e mal, certo e errado se confundem. Por estar em toda parte, suspeito que esse tema aproxime-se, entre nós, do impensável, e que traga em seu DNA, como esses vírus de mutações constantes e velozes, alguma coisa metamórfica que sempre se transfigura e escapa.

Suspeito no entanto que haja um vínculo estreito entre violência e burrice urbana. Além de morar em São Paulo, andei recentemente por Salvador, São Luís, Manaus, Natal –suspeito que sejam, todas elas, cidades apodrecendo sob o sol. Quarteirões tombados tombando, de um lado; prédios totalmente desconectados da cidade (além de feios), sem cota nem propósito urbano, de outro. Suspeito que entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a especulação imobiliária uma curiosa aliança esteja aos poucos se fazendo –ruínas orgulhosas copulando com despautérios azulejados de 30 andares.

Suspeito que cada detalhe desses grandes centros urbanos esteja em situação igualmente trágica. Suspeito, por exemplo, que quase todas as praias em cidades desse porte tenham ficado estreitas, comprimidas contra um muro de arrimo. Como não podemos mais transportar o paredão dos egoístas (a expressão é de Le Corbusier) cem ou 200 metros no sentido da montanha, suspeito que será preciso aterrar o mar para termos novamente praias em escala decente. Suspeito que muitas vezes as piadas que fazemos com os portugueses se apliquem a nós.

Suspeito que a indústria cultural brasileira seja também ela violenta. Assisti a Luciano Huck “modernizando” a ximbica de um espectador. Vi esse espectador chorar, depois mover os braços como se quisesse abraçar os joelhos do apresentador. Suspeito que isso seja cruel. Suspeito que isso seja cretino.

Suspeito que o tropicalismo tenha naturalizado nossa indústria cultural até um ponto sem retorno, e que o ciclo de conquistas democráticas provenientes dessa operação tenha já se encerrado há décadas. Suspeito que perceber o tiquinho de crueldade que haveria em atirar bacalhau nas pessoas não faça mal nenhum ao país; surpreender um ríspido sargento no modo como Ivete Sangalo dança e canta também não. Suspeito que acessar algo de ridículo no “Jornal Nacional” –a falsa intimidade da dupla, seu balé de rostos virando para a câmera, a ruga na sobrancelha de William Bonner, como um aluno estudioso se preparando para começar uma prova, a gostosíssima Patrícia Poeta descrevendo, e ainda mais com esse nome, a chegada de um tsunami ou terremoto de nove graus na escala Richter– seja uma conquista nacional relevante. Suspeito, no entanto, que nessa área caminhemos para uma verdadeira hagiografia, unilateral e coletiva (daí o esforço, essencialmente religioso, de controlar biografias).

Suspeito que a falência do caríssimo estado brasileiro esteja maquiada por uma espécie de chantagem inconsciente –com uma distribuição de renda como a nossa, sem ele seria ainda pior. Suspeito que esse raciocínio seja imobilista e refém de si mesmo, e que tenhamos perdido completamente qualquer medida de eficiência que permita cobrar o Estado como um prestador de serviços (com a morte galopante da Política, suspeito que seja nisso que ele venha se transformando).

Suspeito que a enorme migração do imaginário político para o econômico nos países desenvolvidos tenha ocorrido após uma razoável distribuição de renda via imposto e conquistas sindicais. A tirania da vida econômica sobre a política, entre nós, se deu num quadro social ainda trágico, que solicitaria muito da política. Suspeito que nossa falta de agudeza e imaginação políticas sejam, por isso, eticamente imperdoáveis. Suspeito que imaginação política no Brasil seria a capacidade de transformar o aumento de renda, a partir do Deus-PIB, em aumento de direitos, a partir do Deus-cidadania.

Tenho 54 anos e suspeito que os únicos projetos nacionais com Pê razoavelmente grande que acompanhei sejam o Plano Real e o Bolsa Família. Suspeito que não estejam tão distantes do imaginário desenvolvimentista, árido e autoritário, dos anos 70 e que afinal isso seja pouco para toda uma geração –e se suspeito que estou sendo injusto com um grupo enorme de pequenos projetos que poderia chamar de redemocratização, que me permitem inclusive escrever isto aqui num grande jornal, suspeito também que isso não passe de obrigação cívica.

Por sinal, suspeito que tenhamos perdido completamente a medida dessa obrigação, e que toda a cultura brasileira venha enfrentando fortes problemas de escala. O que é o máximo? O que é o mínimo? De onde o horror não passa? Dessa vez chega? Qual o limite? Mesmo em casos extremos (conectar um pescoço humano a um poste com uma trava de bicicleta, por exemplo), suspeito que nossa medida continue vaga, elástica.

Suspeito que o termo dívida interna, de memória econômica, descreva bem o país –devemos aos deserdados, aos desocupados, aos desmantelados, aos desabitados, aos destrambelhados e aos desmemoriados. Devemos renda, saúde, educação, claro, mas também avencas, bueiros, ruas, parques, chicletes, remédios tarja preta; devemos água potável, brinquedos, lanternas, poços artesianos; devemos livros, trufas, CDs, lentes de contato, filmes de arte, óculos escuros, museus, proteína, alface. Devemos aos pobres, aos índios, aos pretos e aos pardos, mas também aos albinos, aos esquizofrênicos, aos insones, aos priápicos, aos tiozinhos de padaria, aos mitômanos e aos sexualmente indecisos. Devemos demais aos cães atropelados, prensados contra o “guard-rail”. Devemos aos palhaços de bufê infantil e aos papais noéis de shopping. Suspeito que nossa dívida interna seja impossível de descrever.

Suspeito que deus não exista –ou não tenha paciência para nenhum dos assuntos de que lembrei aqui.

Suspeito que a risada, o pôr do sol, o hino à alegria e o acorde maior estejam sendo de alguma forma privatizados. Suspeito que Paulo Coelho, o padre Marcelo Rossi e o bispo Edir Macedo sejam três faces de uma mesma e última privatização –a do infinito. Suspeito que estatizar essas coisas seja ainda pior.

Suspeito que a Portuguesa vai falir, acabar. Suspeito que Galvão Bueno não vai se aposentar nesta Copa, nem na próxima.

Suspeito que estamos fodidos.

Fonte: [ Folha ]

A crença impede a verdadeira compreensão

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“Se não tivermos crença, o que aconteceria? Não estaríamos muito amedrontados com o que poderia acontecer?

Se não tivéssemos nenhum padrão de ação baseado numa crença ou em Deus, ou no comunismo, ou no socialismo, ou no imperialismo, ou algum tipo de forma religiosa, algum dogma a que estamos condicionados, nos sentiríamos completamente perdidos, não é?

E não está esta aceitação de uma crença encobrindo esse medo – o medo de ser realmente nada, de ser vazio?

Afinal, uma xícara só é útil quanto está vazia; e uma mente que está cheia de crenças, dogmas, assertivas, citações, é realmente uma mente não criativa; é simplesmente uma mente repetitiva.

Para fugir desse medo – esse medo do vazio, esse medo da solidão, esse medo da estagnação, de não chegar, não ter sucesso, não conseguir, não ser alguma coisa, não se tornar alguma coisa, é certamente uma das razões – não é? – porque aceitamos as crenças tão ávida e ansiosamente?

E pela aceitação da crença, compreendemos a nós mesmos? Ao contrário.

Uma crença religiosa ou política, obviamente impede a compreensão de nós mesmos.

Ela atua como uma barreira através da qual olhamos para nós mesmos.

E podemos olhar para nós mesmos sem crenças? Removem-se estas crenças, as muitas crenças que se tem, resta alguma coisa para olhar?

Se não tivermos crenças com as quais a mente se identifica, então a mente, sem identificação, é capaz de olhar para si mesma como ela é, e aí, certamente, está o início da compreensão de si mesmo.”

– J. Krishnamurti, The Book of Life |

http://www.jkrishnamurti.org/pt/krishnamurti-teachings/view-daily-quote/20130226.php

Sobre o medo

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“Medo não é real. O único lugar onde o medo pode existir é em nossos pensamentos sobre o futuro. É um produto da nossa imaginação, nos causando temor por coisas que não existem no presente e que podem nunca existir. Isso é quase perto da insanidade. Não me entenda mal; perigo é bem real, mas medo é uma escolha.” – Diálogo de um trecho do filme ‘After Earth’.

Erre feio, erre rude

Sabe o Einstein? Aquele tiozinho maneiro que postava foto no instagram com a língua pra fora e, de quebra, revolucionou a física?

Então, ele também errava sabe. Se bem que o maior erro dele foi achar que estava errado. Então, a menos que você seja Einstein, a probabilidade maior é que você esteja errado mesmo.

A minha ex-namorada faz doutorado em física. Um dia, conversando com ela sobre sua tese, perguntei: e se alguém da banca fizer uma pergunta sobre a sua tese e você não souber a resposta?

E ela me disse: aí eu digo que não sei.

Errar é algo demonizado. Se considera um erro a pior coisa que você poderia ter feito. Nossa vida gira em torno do “não erre”. “Não erre a escolha do curso da faculdade ou você perderá anos da sua vida”. “Não erre no seu trabalho ou você irá para o olho da rua”. “Não erre com a sua namorada ou ela vai deixar você”.

Erro, não nego. Acerto quando puder.

Sir Ken Robinson, em sua palestra do TED, contou a história da montagem infantil da “Chegada dos três reis magos” na escola do seu filho. Quando o três reis chegaram, eles disseram:

– Eu trouxe o ouro.

– Eu trouxe o incenso.

– O Frank que mandou isso.

Sim, o terceiro garoto esqueceu sua fala. Ken Robinson explicou:

“Crianças assumem riscos. Quando não sabem a resposta, elas chutam. Elas não tem medo de errar. Eu não estou querendo dizer que estar errado é a mesma coisa que ser criativo. O que sabemos é que, se você não estiver preparado para errar, você nunca vai ter uma ideia original”.

Em um texto do Wagner Brenner sobre “elogiar crianças”, ele cita a seguinte pesquisa:

”(…) Um teste, realizado nos Estados Unidos com mais de 400 crianças da quinta série (Carol S. Dweck / Ph.D. Social and Developmental Psychology / Mindset: The New Psychology of Success), desafiava meninos e meninas a fazer um quebra-cabeças, relativamente fácil.

Quando acabavam, alguns eram elogiados pela sua inteligência (“você foi bem esperto, hein!) e outros, pelo seu esforço (“puxa, você se empenhou pra valer hein!”).

Em uma segunda rodada, mais difícil, os alunos podiam escolher entre um novo desafio semelhante ou diferente.

A maioria dos que foram elogiados como “inteligentes” escolheu o desafio semelhante.

A maioria dos que foram elogiados como “esforçados” escolheu o desafio diferente.”

Tememos estar errados. E esse é um dos motivos por qual não gosto de discussões. Geralmente, uma discussão são duas pessoas querendo falar e nenhuma querendo ouvir.

É querer mostrar a outra pessoas que você está certo, no lugar de ouvir o porque aquela pessoa pensa daquela forma.

Quando eu me atrevo a escrever um blog sobre algo que eu não conheço, não vivencio e que não sofro todos os dias, a chance de estar errado é do tamanho de um bonde desgovernado vindo em minha direção. É um constante sentimento de “estou falando merda”. Mas, e se eu estiver falando merda? Alguém vai falar pra mim, vou refletir sobre e aprender. Qual o medo nisso? Que, no futuro, alguém pode me apontar o dedo na cara e dizer “olha só isso que você disse naquela época!”. Bem, quem fizer isso comigo, pedirei para voltar no tempo e ir falar com aquele Diogo do passado.

Não sei se vocês já notaram, as pessoas mudam. Ainda bem.

O Alex Castro, em um texto seu, comentou sobre uma aula que ele deu, em que o aluno não tinha entendido a matéria:

”(…) Uma vez, em sala de aula, eu acabara de expor um tempo verbal bem complexo para o qual não existia equivalente na língua materna dos alunos. Um deles, o que tinha mais dificuldade, levantou o braço e disse que ainda estava muito confuso. Perguntei se tinha mais alguém confuso na sala. Muitos (mas não todos) levantaram o braço.

E expliquei:

‘Vocês acabaram de ser expostos a uma quantidade grande de informação sobre um tempo verbal totalmente novo, que funciona de um modo bem diferente da lógica da língua nativa de vocês. Diante disso, a reação mais correta, mais apropriada e mais humana é mesmo ficar confuso.

Se, agora, nesse momento, vocês estivessem seguros de ter entendido tudo, provavelmente seria uma falsa confiança, fruto de um entendimento ainda incompleto. Vocês ainda vão passar vários dias confusos, mas não tem problema. O teste é só daqui a um mês. Enquanto isso, vamos treinar isso juntos, em sala, em grupos, sem valer nota, até vocês de fato saberem como usar esse tempo verbal.

Até lá, ficar confuso só faz bem.’

O aluno que fez a primeira pergunta me olhou com um alívio tão grande, mas tão grande que fiquei até emocionado, e desabafou:

‘Nunca ninguém tinha me dito que era OK estar confuso!’”

Pensar é errar. Errar é pensar.

No texto da trilogia feminista – O individuo, que fiz um tempo atrás, eu explique como o nosso cérebro funciona para manter os padrões que aprendemos. Isso inclui o de repetir aquilo que achamos que é o certo:

“(…) mudar de comportamento significa, primeiramente, analisar o comportamento atual. Aqui começa o problema, pois ao fazer isso, nos damos conta de que muitas coisas importantes que acreditamos na verdade não existem e isso aumenta o nível de ansiedade.

Durante o processo evolutivo, a redução da ansiedade foi um mecanismo importante que colaborou para a manutenção da vida, porque ansiedade em intensidade elevada e/ou, por tempo prolongado, causa danos ao organismo. Sempre que temos elevados nossos níveis de ansiedade, disparamos mecanismos que tentam reduzí-la e um dos primeiros movimentos que ocorrem é a tentativa de remoção do estímulo aversivo. Em outras palavras, se começar a pensar sobre nosso comportamento é algo que aumenta a ansiedade, a forma mais fácil de reduzir esta ansiedade é simplesmente parar de pensar. “

Ontem estava conversando com uma amiga sobre a recente pesquisa do chega fiu-fiu e um outro texto que contestava essa pesquisa. Ela me apresentou à Hannah Arendt. Hannah estudou filosofia e sociologia. Um dia, foi enviada para cobrir o julgamento de um nazista pela morte de 90 mil judeus, em Jeruzalém.

Hannah publicou um texto onde ela dizia que aquele nazista, pelo seu comportamento, não era um monstro. Era um cara normal, mas que parou de pensar. Passou simplesmente a “seguir ordens”.

Ao juntar as palavras “nazista” e “normal” no mesmo texto, ela foi massacrada nos EUA. Passou a receber cartas de ameaça de morte, acusações que ela era nazista e quase foi expulsa da universidade em que dava aula.

Ela então fez um discurso mostrando que as pessoas nos EUA que a agrediram também estavam deixando de pensar e como isso era perigoso. No seu livro “Origens do Totalitarismo”, de 1950, ela discorre sobre o anti-semitismo, o imperialismo e o totalitarismo. Na introdução ela diz:

”(…) A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível pode levar-nos a interpretar a história por meio de lugares-comuns. Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência.

Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja.”

Eu não tenho nenhum problema com pessoas que buscam as respostas ou as verdades do mundo. Tenho problemas com quem diz que as encontrou.

Nós estamos sempre em busca de respostas. Ou pelo menos deveriamos. O problema é querer que outras pessoas tenham essas respostas. Ou se fiar nas pessoas que dizem ter as respostas.

Pessoas que definem o que é “bem” e o que é “mal”. Ou quem o é. Hannah, no seu livro, alerta justamente para isso. Ao linkarmos o “mal maior” unicamente a uma época ou a uma situação (nazismo), estamos estabelecendo que o pior já passou. Que já ficou no passado. Que daqui pra frente tudo será melhor. E isso nos faz aceitar o que é a “verdade”, o que é o “certo”, o que é “bom”. O outro lado é o “errado”.

Ela está certa ou errada? Cabe a cada um pensar sobre isso. Mas ela se deu ao direito de pensar e de estar errada, se assim o for. Isso vale para tudo.

Não concordei com os pontos da minha amiga, na nossa conversa (mas não discordei por completo também). E entendo o que ela quis dizer. Até porque, ela me disse o que ela quis dizer:

“Desde que eu conheci Hannah eu penso nisso: será q eu estou deixando de pensar? Não quero deixar de pensar.”

Geração em Linha Reta

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Fernando Pessoa (beijos Fefê. Saudades S2) quando escreveu o poema em linha reta já falava sobre como evitamos ao máximo o erro. Negamos. Escondemos.

Com a internet, isso se torna mais perigoso, porque temos toda a informação que precisamos na nossa mão. Mas o martelo de Deus na mão de um macaco não serve para nada. Não é o fato de possuir uma informação, mas o que fazer com ela e o que pensar sobre ela.

Quando minha ex-namorada falou de um físico no congresso em que ela participava, me disse o seguinte: “Ele é muito bom. Mas há quem diga que ele escreve artigos com coisas meio erradas de vez em quando. Mas isso é normal para todo físico”.

Um físico que passou a vida acadêmica toda estudando sobre um tema, pode estar errado.

Eu às vezes imagino a minha geração como uma Geração Em Linha Reta.

Errar é sempre um desafio. Mas, curiosamente, aqueles que chegam mais perto do limite, é porque foram mais longe que os outros que não se atreveram a conhecer o limite.

O problema é que você só descobre o limite, depois que o ultrapassou.

Não existe resposta certa para o mundo. Ele é um grande tentativa e erro.

Mas eu posso estar errado sobre tudo isso, é claro…

Fonte: [ As Mulheres da Minha Vida ]

5 dicas para Superar os Medos

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1. Aceitá-lo

Engana-se aquele que crê poder superar seus temores renegando-os. Também se engana quem pensa em confrontá-los a fim de findá-los. Em ambos os casos o que existe é apenas a permanência do medo. Ele é uma criação perpetuada no reino das emoções, logo sua dissipação naturalmente não se dá por si só. Da mesma forma, confrontá-lo é realimentá-lo, pois é disso que ele vive.

Existe algo que suporta toda a matéria e tudo o que dela provém. É um fluxo constante, como a correnteza de um rio. Quando esse fluxo é bloqueado, diz-se que se está distorcendo a natureza da própria existência. Bem-aventurados são os que o compreendem e seguem-no em harmonia e paz. Quando isso é aprendido, o homem torna-se senhor de sua vida, pois não está mais contra a natureza.

Logo, ele compreende que para vencer o medo é necessário aceitá-lo, pois sendo sua própria cria, renegá-lo ou confrontá-lo é ferir o próprio filho. O medo existe e continuará existindo a menos que você o eduque e o transforme em algo melhor. Deste modo, reconhecê-lo como existente é o primeiro passo para instruí-lo corretamente, recolocando-o de volta a favor do Dharma, do fluxo da Criação.

2. Conhecê-lo Profundamente

Dizia-se que na antiga arte da guerra, a tarefa principal do estrategista era a de conhecer o inimigo para então poder derrotá-lo. Aqui não há guerra, não há luta, não há conflito. Todavia, mesmo numa atitude pacífica ainda se faz necessário conhecer aquele o qual se deseje instruir. “Vencer o medo” é apenas uma alegoria. De fato, o que se pretende é purificá-lo, transformando-o em outra coisa.

Conhecê-lo não é apenas no reino da superficialidade, mas em todas as nuances na qual ele age e por quais razões o faz. É preciso desmistificá-lo, destrinchá-lo a fim de entendê-lo de maneira profunda. Sendo parte de você, sendo sua cria, o mínimo que lhe é pedido pela naturalidade da situação é que conheça seu filho.

Saiba por que ele surge, por que ele está sempre à espreita, por que você ainda não foi capaz de superá-lo. Conheça-o como a você mesmo.

3. Desvendar Sua Origem

Tudo o que é da matéria, tudo o que é do limitado tem uma origem. A própria manifestação tem uma origem. Logo, para instruir o seu medo a fim de sublimá-lo é necessário ir fundo e desvendar sua origem. Em algum momento o medo foi criado. No instante de seu nascimento, sua inconsciência permitiu que esta cria se tornasse senhora de seu criador, você. Volte no tempo e tente encontrar o momento exato em que o medo surgiu.

Isso abrirá seus olhos para uma nova perspectiva, a do observador distante. Entenderá, deste modo, o quão tolo foi ao aceitar a vinda desta criação para sua vida, uma vez que os motivos, agora a olhos distantes, são pueris e, quem sabe, néscios.

Compreender a origem do medo é saber o ponto exato em que o sentimento da verdade, do não-medo, deixou de existir. E trazer de volta, ou reavivar, tal verdade, tal sentimento torna-se muito mais simples quando sabemos exatamente do que se trata.

4. Entender Suas Implicações

O medo traz diversas implicações que só podem ser compreendidas quando se tem total aceitação sobre ele e total conhecimento a respeito de sua personalidade e origem. Logo, após estar ciente do que o medo é e de onde ele surgiu, você será capaz de olhar de forma contumaz e atenta para todos os efeitos colaterais advindos dele.

Entender essas implicações traz de volta a razão, uma vez que agora, consciente do que está acontecendo, pode-se compreender que nada do que se origina do medo deveria estar presente em sua vida. A paranóia, a ansiedade, a irritação, a reclusão, o cansaço, a ignorância, tudo isso são implicações do medo. Identificá-las só é possível através dos três estágios citados acima.

Logo, fica bastante evidente que não existe nenhum benefício para que o medo continue instalado em sua vida. Essa constatação não é superficial ou mental, mas profunda. Aqui já se está pronto para sublimá-lo.

5. Positivá-lo

Uma vez que esteja completamente cônscio de que o medo não tem motivos para estar em sua vida, o próximo passo é de uma simplicidade absurda. Trata-se de olhá-lo profundamente nos olhos e amá-lo verdadeiramente. Isso só é possível após aceitá-lo e compreendê-lo em todas as suas variantes, pois se percebe o quão frágil ele é, assim como você o fora.

Naturalmente, de maneira silenciosa, ele irá desvanecer por completo. Ao notar-se sem qualquer motivo para existir, tende a dissipar-se, pois só pode existir como medo. Ao transformar-se em coragem, já não mais é o que era. Diz-se que ele foi sublimá-lo. Ao não ter mais motivos para existir e mesmo assim recebendo amor de seu criador, o medo se transforma em sua contraparte. Esse então é o desapego amoroso.

Logo, de forma natural, silenciosa e pacífica, o medo desaparece e jamais tornará a nascer, uma vez que cada medo é um ser individual e único. Quem aprende a transformar seus temores, desejos, anseios, tristezas e raivas em suas contrapartes, torna-se seu próprio mestre. Isso é alquimia interior.

Fonte: [ Liberte-se do Sistema ]