O pavê

Se tem uma coisa que gosto – mesmo! – é de fazer comida. Adoro! Me amarro em temperos, especiarias… Acredito que todo ser humano precisa pelo menos conseguir sobreviver fazendo o próprio almoço e jantar. É o básico.
 
Só que é aquilo… Nem todo mundo consegue ou quer aprender a cozinhar. Seja porque fica com medo do óleo espirrar na hora de fazer uma batata-frita, ou foi tentar fazer um arroz uma vez e ficou aquele “unidos venceremos”… Fora que cansa fazer comida todo dia. Ainda mais se for para uma pessoa só. Bem…
 
Eu sempre fui curioso e pra variar ficava lá na cozinha, vendo minha mãe preparar altos pratos, doces e salgados. O detalhe: ela aprendeu com me pai. Ele que sabia conzinhar e foi ensinando.
 
Vendo aquilo – e provando, claro – foi me dando a vontade de aprender. Eu pensava… “Nossa, o dia que meu pai for embora, minha mãe for embora, como que eu vou ficar sem essas comidas? Sem esses doces maravilhosos?”. Então lá pelas tantas tomei coragem e pedi: “Me ensina?”.
 
Comecei aprendendo a fazer café. Já contei isso numa outra ocasião… Aprendi também a fazer arroz, feijão, bolos, pudins, sopas, vatapás, churrasco, peixe frito… Até chegar no ponto de saber ler uma receita e conseguir prepará-la.
 
Um belo dia, tantos anos depois, foi a vez do meu filho experimentar um pavê que fiz num final de semana que ele estava lá em casa. Achou delicioso! Comia e pedia mais… Guardei aquilo como uma boa lembrança.
 
Como ele vinha de tempos em tempos, de 15 em 15 dias, já me programava para que quando ele viesse iria fazer algumas comidas que ele gostasse. Essa era uma das minhas formas de demonstrar carinho.
 
Quando falei que ele iria vir naquele fimd e semana, pelo telefone sorriu e pediu: “Pai, faz aquele pavê de pêssego que você fez naquele dia?”. Claro que sim, respondi.
 
Quando voltei do trabalho desci perto de um mercado para comprar os ingredientes. Estava morando em São Gonçalo naquela época e na rua tinha uns três ou quarto mercados. Era só ir num, e se não tivesse alguma coisa, dava para ir à pé nos outros.
 
Sabe aqueles avisos que a gente ignora mas estão sempre na nossa cara? Aquele mosquito que zune na hora de um pensamento, ou aquela topada que te impede de ir em frente? Pois é…
 
Fui no mercado e não tinha pêssego. Tinha creme de leite, maizena, biscoito, leite condensado… Vi os preços e fui pra outro mercado em busca dos pêssegos. Necas, também não tinha. Pensei, “Gente, que diacho de situação é essa? Todo mundo resolveu fazer pavê?”. Vi os preços e tudo mais caro. “Na volta eu passo lá e compro porque tá mais barato.”.
 
Meti o pé e fui meio que correndo para o outro mercado. Era sexta-feira, já estava ficando tarde e o medo era que fechassem. Uns quatro quarteirões depois entro no mercado perguntando, um pouco esbaforido: “Vocês tem pêssego? Vocês tem pêssego?”..
 
Finalmente tinha! Uhús! Uma mulher que parecia ser a gerente me olhou tipo “esse cara deve ser doente” e me apontou onde ficavam as latas. Abri aquele sorriso e, droga, a alegria durou pouco.
 
Na seção só tinha duas marcas. Aos preços de hoje, uma custava algo em torno de R$ 38 reais, a outra marca R$ 25. “Que diacho de pêssego caro da porra… Mas fazer o que, né? É meu filho…”, pensei. Peguei um pote e fui pra fila.
 
Não lembro exatamente se estava perto de um feriado, ou se tinha algum motivo para aquilo… Nem tinha reparado no tamanho das filas na hora que entrei. Carrinhos e mais carrinhos de compras na minha frente. Se fosse noutra ocasião nem pensava duas vezes, largava tudo ali e ia embora. Mas não, era o pavê do meu filho…
 
Foi passando o tempo e a fila parecia demorar cada vez mais. Não daria tempo de voltar no primeiro mercado, então pedi que vigiassem meu lugar e fui atrás dos outros ingredientes. Tinha tudo, menos maizena.
 
Voltei pra fila e quase uma hora depois consegui sair dali. Voltei andando uns 15 quarteirões e quando chego no primeiro mercado o vigia desce a útima porta, que fica pela metade. Pedi para me deixassem entrar e nada. “Já fechou!”, disse o segurança ríspido.
 
Olhei para uma senhora que estava passando as compras e pedi: “Dá para a senhora comprar pra mim uma caixa de maizena? Te pago aqui. É pro meu filh..!”. Nem deu tempo de completar, o segurança veio e fechou a porta na minha cara.
 
Meio sem acreditar naquilo fiquei ali, parado, pensando uns 5 minutos no que fazer… “Onde que eu iria arrumar maizena com tudo fechado? Será que naquelas lojas de conveniência tinha?”.
 
Nisso abre a porta do mercado para o povo que estava nos caixas sair. Vem saindo aquela senhora e me entrega uma caixa de maizena! Dei 10 reais, ela me olhou com espanto quando lhe disse “Pode ficar com o troco. Já me ajudou muito. Gratidão!” e lá fui eu correndo pra casa, pois meu filho estava para chegar. “Gratidão!”.
 
Enquanto relatava o ocorrido para minha namorada na época, tratava às pressas de fazer o jantar. Ele tinha chegado meio cansado. Todos jantam e volto eu para a cozinha para fazer o pavê.
 
Fiquei lá, sozinho, preparando tudo… Molho o biscoito no leite açucarado, coloco uma camada de biscoito no fundo da travessa, coloco um pouco de pêssegos fatiados por cima e… Gente! Cadê o creme? Esqueci de fazer o creme!
 
Pego uma panela pequena e coloco no fogo: um litro de leite, 3 gemas, 3 colheres de maizena peneirada, uma lata de leite condensado e uma gota de baunilha… Dá cinco minutos eu lá mexendo o creme e… PUF! O fogo apaga.
 
Pois é, senhoras e senhores… Quase 11 da noite acaba o gás do botijão. Já era o pavê. Tendo ligar para aqueles serviços de entrega; toca, toca e ninguém atende…
 
Quando chego na sala para dar a péssima notícia vejo que todos estão dormindo. E sonhando com o pavê.
 
Tampo a panela, tomo aquele merecido banho e já resignado me deito para dormir também… Afinal, o que eu poderia fazer? Já era…
 
Assim que boto a cabeça no travesseiro me vem a ideia! ATUM! Saltei da cama, corri para a cozinha e comecei a vasculhar os armários em busca de uma lata de atum… Ôba! Tinha!
 
Se tem uma coisa que aprendi foi a me virar em campings. Ali você aprende que tudo dá-se um jeito e que a solidariedade é a coisa mais rica que podemos ofecerer. Por lá aprendi várias coisas, inclusive que dá para fazer fogo com uma lata de atum. Como?
 
Bastou abrir a lata, retirar o atum, colocar álcool, retirar uma boca do fogão e encaixar como se fosse um fogareiro. Acendi, coloquei a panela com o creme para cozinhar e… Tânam! 🙂 Deu certo!
 
Na manhã seguinte, entre piadas e risadas sobre tudo que tinha acontecido, lá estava meu filho, saboreando aquela custosa sobremesa.
 
Ah… Como ficou o pavê? Ficou ótimo! rs…
Anderson Porto
espiriteira_improvisada