A morte de Helena

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Hoje Helena morre
mais uma vez.

Quantos já sofreram por Helena?
Quantos já mataram por Helena?
Quantos já se destruíram por Helena?

Helena, rainha do drama,
salto da morte teatral,
de exageros imensurais,
emocionais desejos vendavais,
caprichos de necessidades irreais,
pousados em seu semblante,
banhados em lágrimas azuis;
de cativantes olhos lagoas.

Hoje morre Helena,
seus cabelos de henna,
raios de ouro e verbenas,
seu navegar em mar bravio,
navio pirata de mecenas.

Não mais morrerão heróis!
Não mais! Não mais!
Helena não mais vive,
nem perfuma, nem enebria
tal qual sirenas.

Aqui jaz Helena,
seus caprichos de Helena,
tudo, tudo que Helena tinha,
beleza que invejam os Deuses,
poder que corrompe e alucina.

Morta, selada em mármore
para que não se veja
o despedaçar do rosto
para que não haja
em nenhum momento
nem lembrança,
nem lamento,
nem pena.

Ali jaz Helena.
Só.
Sem plantas por perto,
sem virar lírio.
sem recomeço,
sem volta,
sem som.

Finalmente eterno.
Fim do verão e inverno.
Fim das contradições,
guerras e redenções,
linhas imaginárias
de uma merecida paz.

Areia desintegrada,
varrida pelo tempo,
sem pegadas,
sem vento,
sem pó.

(Anderson Porto)

As mil e uma noites

As mil e uma noites

“A arte de amar é a arte de não deixar que a chama se apague. Não se deve deixar a luz dormir. É preciso se apressar em acordá-la (Bachelard).

E, coisa curiosa: a mesma chama que o vento impetuoso apaga volta a se acender pela carícia do sopro suave…

“As mil e uma noites” são uma estória da luta entre o vento impetuoso e o sopro suave. Ela revela o segredo do amor que não se apaga nunca. …

O corpo é um lugar maravilhoso de delícias. Mas Sherazade sabia que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve. A chama se apaga tão logo o corpo tenha se esvaziado do seu fogo. O seu triste destino é ser decapitado pela madrugada: não é eterno, posto que é chama.

E então, quando as chamas dos corpos já se haviam apagado, Sherazade sopra suavemente. Fala. Erotiza os vazios adormecidos do sultão. Acorda o mundo mágico da fantasia.

Cada estória contém uma outra, dentro de si, infinitamente. Não há um só orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela. Tão bela. Bela como nenhuma outra. Porque uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela…

Conta a estória que o sultão, encantado pelas estórias de Sherazade, foi adiando a execução, por mil e uma noites, eternamente e um dia a mais.

Não se trata de uma estória de amor, entre outras. É, ao contrário, a estória do nascimento e da vida do amor.

O amor vive nesse sutil fio de conversação, balançando-se entre a boca e o ouvido. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo sem argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita.

Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar … Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.

As mil e uma noites são a estória de cada um. Em cada um mora um sultão. Em cada um mora uma Sherazade.

Aqueles que se dedicam à sutil e deliciosa arte de fazer amor com a boca e o ouvido (estes órgãos sexuais que nunca vi mencionados nos tratados de educação sexual…) podem ter a esperança de que as madrugadas não terminarão com o vento que apaga a vela, mas com o sopro que a faz reacender-se.”

(Rubem Alves)

Pedido às mulheres

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Um pedido:
– MULHERES, LIBERTEM-SE !!

Chega de escravidão!
Libertem-se
das tintas para cabelos,
do botox, dos creminhos
para “marcas de expressão”.

Chega dessa falsa ilusão,
criada para manter
as mulheres ocupadas,
distraídas,
em eterna competição.

Saber envelhecer
é uma arte
faz parte
da vida,
não é ferida
que precise
de cicatrização.

A maquiagem
é uma mentira,
uma agonia,
que rouba
a beleza
da certeza
da passagem
do tempo.

A maquiagem
é um lamento,
uma aflição,
uma máscara
que esconde a ira
e por vezes,
enganação.

Anderson Porto