Ode ao poeta sumido

 

Hoje me veio aquela baita saudade
duma face mágica que colore o dia,
e torna tenro o perspassar da rotina.

Onde estará você, poeta?

Escondido talvez, no porão de algum navio,
a singrar tempestades e mares bravios?
Talvez escalando montanhas de vidro?
Quem sabe vasculhando o centro da Terra?
Descansando enquanto medita numa prece?
Ou encarando algum trabalho que enobrece?

É bem capaz de estares cá e lá,
distraindo a inquieta mente,
… … … … [quem diria]
duelando contra costumes morais,
ou simplesmente lendo jornais,
enquanto toma um café pingado na padaria…

Por onde andas, poeta?
Cadê aqueles pontos de vista?
… … (que de tanto expô-los,
… …  portanto vê-los,
… … já são nossos selos.)
Cadê aquele olhar que evidencia?

Na boa… Gente!
Peçamos todos que o poeta volte?
— Volte, poeta, volte!

Apareça! Traga aquela lanterna,
uma claridade que ilumina…

Mostre para nós um virtuoso caminho,
riscando flamejante o céu entre as estrelas
numa estrada enlameada, escura e fria.

Eu? Pra variar cá te encontro,
no mesmo lugar, a te aguardar,
na entrada da caverna,
talvez saída.

(Anderson Porto)

caverna

Brinde ao entardecer

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Bebo,
Bebo por ti,
por mim e por todos
aqueles que não podem estar aqui.

Bebo,
E brindo,
Pelo dia findo,
Pelo por do sol lindo,
Pela festa, pelos pássaros,
Pelos sorrisos e abraços,
Numa imensa alegria
que jamais senti.

Bebo,
Choro,
E sorrindo em lágrimas comemoro,
A sensação do pleno pertencer,
espantado pela verdade suprema…
Ainda que tudo esqueça,
Ainda que tudo esmaeça,
Ao amanhecer de um novo dia.

Bebo,
Festejo e durmo.
Daí, de manhã,
de volta à lida,
Com a cabeça doída
Reafirmo aquela mentira
que almejo nunca esquecer:

— Nunca mais bebo na minha vida!

(Anderson Porto)

Complexo brasileiro

Formacao - EDUCADOR

Que canseira,
meu amigo,
minha amiga…
Que desgaste!

É como se estivessem sempre a chumbar os pés do gigante,
impedindo o avante dos esfarrapados pés…

Passo trôpego esse dos brasileiros,
esse arrastar trumbicando, embebedado
por velhos conceitos caducos e mofados.

— O grito espantado
… … emudece de cansaço
… … … frente ao desespero! —

Pé ante pé,
passo a passo,
espremendo esperança
misturada com fé.
– titubeia à esquerda –
avança mas não tem paz.
covardias, sabotagens, atoleiro…
– titubeia à direita –
– mais sujo que pau de galinheiro,
– não limpa nem com aguarraz,
Pronto! Já foi…
… dois, três passos para trás…

O país avança agarrado pelos cabelos!
– releia.

(Anderson Porto)