Pechinchar é viver

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Desde que aprendi que praticamente todas as pessoas são viciadas* em algum tipo de emoção eu meio que venho estudando os vários tipos. Dentre eles, um que quero destacar é aquele que chamo de “pessoas que querem pagar 10 reais para o/a empregado/a“.

Você, eu e todo mundo conhece gente assim. São pessoas que sentem prazer em pagar menos. Vibram com descontos. Só se sentem realizadas se conseguirem pagar muito abaixo do valor por alguma coisa.

Os sinais são claros. Chegam numa roda de conversa e se apresentam: “Oi gente. Vocês não vão acreditar mas ontem paguei dois e trinta e nove no Kicaldo”. Assim mesmo, falando pausadamente os centavos.

Andam quilômetros de carro para comprar milho à 59 centavos. Ficam acordados dia e noite – por semanas! – para comprarem passagens de avião na promoção. Para a Namíbia!

E se não puderem contar o que fizeram aí estraga tudo. Parte do prazer é justamente arrumar algum ouvido que preste atenção na epopeia que foi comprar aquela camisa da Zara num brechó lá em Santa Maria Madalena. Por 9 reais.

E o #ForaTemer está completamente equivocado. Não são só mulheres que se ligam nisso não. Homens também. Na verdade qualquer pessoa pode desenvolver esse tipo de vício.

A figura só se sente bem com sua vida se conseguir, por ex., negociar um desconto no preço do serviço que está contratando. A vida só tem sentido se conseguir comprar meia dúzia de canecas pelo preço de uma. Ou pelo menos receber algum brinde, como uma mão cheia de balas Juquinha.

Se você contar que comprou alguma coisa abaixo do preço, eles sempre irão comentar que conseguiram uma pechincha maior, seja lá no que for. “Paguei 39 centavos no quilo do tomate!”, dizem orgulhosos.

Desconfio que exista uma explicação e esteja relacionada a perdas: algum ente querido, algum relacionamento amoroso que não deu certo, alguma compra que na loja seguinte descobriu-se um preço muito mais barato. É depressão na certa.

A frase resumo deles é: “pechinchar é viver”.

E nem te conto, mas no mercado daqui de perto a dúzia de ovos tá R$ 1,19!

Te vejo por lá?
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Anderson Porto

A inacreditável volta de Jesus

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Dia desses me meti num desses papos de bar, esses onde as pessoas engolem tragos de dor para ficarem alegres, e me deparei com uma conversa pra lá de estranha! Um rapaz discutia com um idoso, notadamente alterado, aos murros, afirmando categoricamente que Jesus havia voltado a Terra. E mais, dizia que podia provar!

Como não tinha nada melhor para fazer, resolvi puxar papo, interessado. O rapaz disse que era um jornalista contratado de um jornal, famoso por mentir descaradamente, mas que dada as circunstâncias, achava que noticiar a volta do Todo-poderoso seria demais.

Indaguei como ficou sabendo dessa suposta volta. Ele me disse:

“- Cara, contando ninguém acredita, mas quase conseguimos levar Jesus no Faustão! Prometemos uma festa daquelas, muito melhor que a de Canaã. Ele poderia transformar água em vinho a hora que quisesse. Faríamos uma exclusiva para o Fantástico, nos moldes das que a gente compra com o poder que temos, mostrando ele resolvendo vários de nossos problemas, tipo fazer jorrar água no Nordeste, falir padeiros criando uma máquina multiplicadora de pão, salvar a Amazônia criando árvores que dessem pauladas nos madeireiros… Fora que ele ia até mostrar um modelo de motor movido a batimentos cardíacos… A gente nem ia precisar de pré-sal!!!”

“- Tá.”, disse eu rindo. “Mas e aí? Cadê Ele?”, perguntei em tom jocoso.

“- Ah, ele desistiu e foi embora, desapareceu. Falou que só tava dando uma passada rápida pelo mundo, para ver como as coisas estavam. Pra começar logo de cara tomou um sacode quando visitou o Rio de Janeiro. Olha só que ideia!? Começar a andar logo pelo Rio? Maluco, né?”

“- Depois foi tentar conhecer São Paulo de perto. Foi pior ainda. Todo barbado, cabeludo, estilo riponga? Botaram pra correr.”

” Na terceira tentativa Ele desistiu. Foi visitar Brasília. Quis falar no Congresso. Por pouco que não crucificaram Ele de novo. Quando os políticos começaram a ouvir aquele papo de repartir, compartilhar… Veio a turma da boquinha e começaram a gritar ‘comunista petralha vai pra Cuba’.  Aí já viu, né? Sebo nas canelas.”

“- Mas peraí, cadê Ele então?”

“- É isso que estou tentando explicar aqui para este senhor. O Jesus veio com um papo de que era apenas o caminho, que a gente é que tinha que mudar, que aí o mundo melhoria também. Vê se pode um papo desses?”

“- Bolivariano então?”

“- Totalmente. O figura ainda me mostrou uns furos nas mãos e as marcas de chibatadas. Tenho as fotos aqui no celular.”

“- E onde Ele está agora?”

“- Rapaz… Soube que ele foi catar um advogado. Quer entrar com processo contra uma fábrica de refrescos que fez uma baita fortuna tempos atrás. Uma tal de Kisuko. Falou que roubaram a receita dele.”

“- Royalties?”

“- Royalties, cara… Pra você ver…”

(Anderson Porto)

foto: http://conversadebalcao.com.br/historia-etilica-de-conquista-o-bar-do-badu/

O Cara

Eu estava tranquilamente em meu escritório, limpando os restos de pólvora do meu 38, e imaginando qual seria o meu próximo caso. Gosto muito dessa profissão de detetive particular e, embora ela me obrigue de vez em quando a ter as gengivas massageadas com um macaco de automóvel, o aroma das abobrinhas até que faz a coisa valer a pena. Sem falar nas mulheres, nas quais não costumo pensar muito, exceto quando estou respirando. Assim, quando a porta do meu escritório se abriu e uma loura de cabelos compridos, chamada Heather Butkiss, entrou rebolando e dizendo que posava para determinadas revistas e que precisava de minha ajuda, minhas glândulas salivares passaram uma terceira e aceleraram. Estava de minissaia e usava uma camiseta justa, tinha mais curva do que uma tabela estatística e seria capaz de provocar uma parada cardíaca até num caribu.

“O que quer que eu faca, meu bem?” – perguntei logo, para não criar maiores intimidades.
“Quero que encontre uma pessoa.”
“Uma pessoa desaparecida? Já tentou a polícia?”
“Não exatamente, Sr. Lupowitz.”
“Pode me chamar de Kaiser, meu bem. OK, quem e o cara?”
“Deus.”
“Deus?”
“Isso mesmo. Deus. O Criador, o Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente e Onipotente. Quero que O encontre para mim.”

Olhem, já tive alguns malucos no escritório antes, mas, com uma forma física daquelas, você é obrigado a ouvir.

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Suspeito que estamos…

por Nuno Ramos

Há tempos venho tentando responder ao convite para escrever nesta página três. O jornal me propôs vários temas, mas nunca me senti preparado para dar conta de nenhum. Então resolvi escrever sobre o que não sei, mas suspeito.

Suspeito que o tema primordial e decisivo da sociedade brasileira sempre tenha sido, e seja ainda, a violência. A vida no Brasil nunca valeu muito. Hoje vale ainda menos. Giramos em torno disso como um animal preso ao poste. Suspeito que o sentimento de agoridade que nos caracteriza faça fronteira com essa violência. Suspeito que precisaríamos, como contraponto, de maior lentidão e inércia.

Perto da violência, suspeito que tudo saia do lugar. Noções como alto e baixo, direito e esquerdo, bem e mal, certo e errado se confundem. Por estar em toda parte, suspeito que esse tema aproxime-se, entre nós, do impensável, e que traga em seu DNA, como esses vírus de mutações constantes e velozes, alguma coisa metamórfica que sempre se transfigura e escapa.

Suspeito no entanto que haja um vínculo estreito entre violência e burrice urbana. Além de morar em São Paulo, andei recentemente por Salvador, São Luís, Manaus, Natal –suspeito que sejam, todas elas, cidades apodrecendo sob o sol. Quarteirões tombados tombando, de um lado; prédios totalmente desconectados da cidade (além de feios), sem cota nem propósito urbano, de outro. Suspeito que entre o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a especulação imobiliária uma curiosa aliança esteja aos poucos se fazendo –ruínas orgulhosas copulando com despautérios azulejados de 30 andares.

Suspeito que cada detalhe desses grandes centros urbanos esteja em situação igualmente trágica. Suspeito, por exemplo, que quase todas as praias em cidades desse porte tenham ficado estreitas, comprimidas contra um muro de arrimo. Como não podemos mais transportar o paredão dos egoístas (a expressão é de Le Corbusier) cem ou 200 metros no sentido da montanha, suspeito que será preciso aterrar o mar para termos novamente praias em escala decente. Suspeito que muitas vezes as piadas que fazemos com os portugueses se apliquem a nós.

Suspeito que a indústria cultural brasileira seja também ela violenta. Assisti a Luciano Huck “modernizando” a ximbica de um espectador. Vi esse espectador chorar, depois mover os braços como se quisesse abraçar os joelhos do apresentador. Suspeito que isso seja cruel. Suspeito que isso seja cretino.

Suspeito que o tropicalismo tenha naturalizado nossa indústria cultural até um ponto sem retorno, e que o ciclo de conquistas democráticas provenientes dessa operação tenha já se encerrado há décadas. Suspeito que perceber o tiquinho de crueldade que haveria em atirar bacalhau nas pessoas não faça mal nenhum ao país; surpreender um ríspido sargento no modo como Ivete Sangalo dança e canta também não. Suspeito que acessar algo de ridículo no “Jornal Nacional” –a falsa intimidade da dupla, seu balé de rostos virando para a câmera, a ruga na sobrancelha de William Bonner, como um aluno estudioso se preparando para começar uma prova, a gostosíssima Patrícia Poeta descrevendo, e ainda mais com esse nome, a chegada de um tsunami ou terremoto de nove graus na escala Richter– seja uma conquista nacional relevante. Suspeito, no entanto, que nessa área caminhemos para uma verdadeira hagiografia, unilateral e coletiva (daí o esforço, essencialmente religioso, de controlar biografias).

Suspeito que a falência do caríssimo estado brasileiro esteja maquiada por uma espécie de chantagem inconsciente –com uma distribuição de renda como a nossa, sem ele seria ainda pior. Suspeito que esse raciocínio seja imobilista e refém de si mesmo, e que tenhamos perdido completamente qualquer medida de eficiência que permita cobrar o Estado como um prestador de serviços (com a morte galopante da Política, suspeito que seja nisso que ele venha se transformando).

Suspeito que a enorme migração do imaginário político para o econômico nos países desenvolvidos tenha ocorrido após uma razoável distribuição de renda via imposto e conquistas sindicais. A tirania da vida econômica sobre a política, entre nós, se deu num quadro social ainda trágico, que solicitaria muito da política. Suspeito que nossa falta de agudeza e imaginação políticas sejam, por isso, eticamente imperdoáveis. Suspeito que imaginação política no Brasil seria a capacidade de transformar o aumento de renda, a partir do Deus-PIB, em aumento de direitos, a partir do Deus-cidadania.

Tenho 54 anos e suspeito que os únicos projetos nacionais com Pê razoavelmente grande que acompanhei sejam o Plano Real e o Bolsa Família. Suspeito que não estejam tão distantes do imaginário desenvolvimentista, árido e autoritário, dos anos 70 e que afinal isso seja pouco para toda uma geração –e se suspeito que estou sendo injusto com um grupo enorme de pequenos projetos que poderia chamar de redemocratização, que me permitem inclusive escrever isto aqui num grande jornal, suspeito também que isso não passe de obrigação cívica.

Por sinal, suspeito que tenhamos perdido completamente a medida dessa obrigação, e que toda a cultura brasileira venha enfrentando fortes problemas de escala. O que é o máximo? O que é o mínimo? De onde o horror não passa? Dessa vez chega? Qual o limite? Mesmo em casos extremos (conectar um pescoço humano a um poste com uma trava de bicicleta, por exemplo), suspeito que nossa medida continue vaga, elástica.

Suspeito que o termo dívida interna, de memória econômica, descreva bem o país –devemos aos deserdados, aos desocupados, aos desmantelados, aos desabitados, aos destrambelhados e aos desmemoriados. Devemos renda, saúde, educação, claro, mas também avencas, bueiros, ruas, parques, chicletes, remédios tarja preta; devemos água potável, brinquedos, lanternas, poços artesianos; devemos livros, trufas, CDs, lentes de contato, filmes de arte, óculos escuros, museus, proteína, alface. Devemos aos pobres, aos índios, aos pretos e aos pardos, mas também aos albinos, aos esquizofrênicos, aos insones, aos priápicos, aos tiozinhos de padaria, aos mitômanos e aos sexualmente indecisos. Devemos demais aos cães atropelados, prensados contra o “guard-rail”. Devemos aos palhaços de bufê infantil e aos papais noéis de shopping. Suspeito que nossa dívida interna seja impossível de descrever.

Suspeito que deus não exista –ou não tenha paciência para nenhum dos assuntos de que lembrei aqui.

Suspeito que a risada, o pôr do sol, o hino à alegria e o acorde maior estejam sendo de alguma forma privatizados. Suspeito que Paulo Coelho, o padre Marcelo Rossi e o bispo Edir Macedo sejam três faces de uma mesma e última privatização –a do infinito. Suspeito que estatizar essas coisas seja ainda pior.

Suspeito que a Portuguesa vai falir, acabar. Suspeito que Galvão Bueno não vai se aposentar nesta Copa, nem na próxima.

Suspeito que estamos fodidos.

Fonte: [ Folha ]

Qual é a droga?

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Por Marcelo Mirisola

Além dos livros e das drogas familiares, nunca precisei mais do que Epocler. Não obstante, amigos viciados tem a necessidade de usá-las e, vezenquando – aqui entre nós – é lícito abandonar a tela e o teclado e ir atrás de um pouco de confusão. Bastam cinco minutos, ou até menos. Aqui na Lapa, em questão de duas ciscadas, o traficante aparece na sua frente, como se tivesse brotado de uma lâmpada de Aladim. Em Ipanema, no Baixo-Gávea, Leblon e adjacências, basta pensar e a droga se materializa diante de voce: pó, maconha, poesia, e, às vezes, o prefeito vem junto e mete porrada.

Não sejamos hipócritas. O ramerrame de Ribeirão Preto, de Balneário Camboriú e da ex-pacata cidade de Jundiaí é igualzinho. O Brasil tá fissurado. A classe média que dona Chauí tanto despreza não me deixa mentir. Burguer King ou Mc Donald’s ?

Se o homem de bem, pagador de impostos e cheirador contumaz não curtir a rua e as grandes emoções, é só pedir delivery. Os caras entregam até pizza de chocolate na sua casa.

Quando você consegue o que quer, bem, em questão de segundos o circo perde o sentido. Você percebe que aqueles caras que vestem fardas e cultivam a ordem, a disciplina e a hierarquia não servem pra quase nada; na realidade eles não passam de crianças sádicas e fetichistas que fazem tanto sentido quanto o traficante e os heróis da Marvel que tomam conta dos seus sonhos de Cinderela.

Pare para pensar: um meganha que enquadra suspeitos e se dirige a outro meganha como tenente, cabo, capitão, um cara que prende e faz uso de algemas e técnicas de imobilização, um sujeito que acorda de madrugada para se perfilar diante de um pedaço de pano colorido, o mesmo tipo que obedece a ordens unidas, que desfila de boina na avenida, pense comigo: para que um xarope desses, que depende de uma voz de comando até para se manter sobre as duas pernas, presta na vida?

Pra cuidar de mim é que não é.

Um apelo. Autoridades civis, militares e eclesiásticas. Senhoras e senhores. Gostaria de fazer um apelo: invistam em video-games e passatempos temáticos. Abram franquias do Parque da Mônica e chamem a Super Nanny, deem massinha e pincéis atômicos para entreter essas crianças mal-humoradas que adoram uma fardinha.

E , do outro lado e ao mesmo tempo, transformem os traficantes em comerciantes, livrem os viciados da marginalidade e deixem o capitalismo cuidar do resto. Se funciona com o Carrefour, o Waal Mart, as Casas Bahia e as lojas Americanas que vendem DVs da Ivete Sangalo e do Gustavo Lima, por que não ia dar certo com as outras drogas?

Em suma, já basta o Deus do Malafaia* para subjugar, prender, orientar e sacrificar o gado que lhe solicita.

No dia que a Vovó da Casa do Pão de Queijo vender heroína, droga por droga porque sou pelo controle de qualidade e pelo recolhimento de impostos, nesse dia não vamos mais precisar de polícia nem para perguntar onde é que fica o necrotério mais próximo.

PS* Quase deixo passar em brancas nuvens a parada Gay e o aniversário de 20 anos da morte de Ayrton Senna.

Acho a parada gay um treco monótono e barulhento tanto quanto corrida de Fórmula 1. Ayrton Senna e Salete Campari são Queens e Kings ( nesse caso a ordem das realezas não altera o produto) do mesmo baralho insosso e enfadonho. Mas isso não interessa. Trata-se apenas da minha singela opinião. Vale que lembrei de uma entrevista que o pastor Malafaia deu para o site Congresso em Foco, coisa de um ano. Veio a calhar.

Ele disse que desconhece gay que não tenha sido violentado na infância. Eu, aqui com meus botões, pensei: também não conheço neo-evangélico que não seja diuturnamente esculhambado na vida adulta. E o pior: eles ainda pagam dízimo por isso. Malafaia também afirmou peremptóriamente que “viadagem” tem tratamento. Se eu fosse repórter que o entrevistou, perguntaria: E burrice? Tem cura?

Fonte: [ Blog do Marcelo Mirisola ]

E POR FALAR EM LADRÃO DE GALINHAS…

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“Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.
– Que vida mansa, heim, vagabundo ? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para cadeia!
– Não era para mim não. Era para vender.
– Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
– Mas eu vendia mais caro.
– Mais caro?
– Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.
– Mas eram as mesmas galinhas, safado.
– Os ovos das minhas eu pintava.
– Que grande pilantra…
Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
– Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega…
– Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.
– E o que você faz com o lucro do seu negócio?
– Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:
– Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?
– Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
– E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
– Às vezes. Sabe como é.
– Não sei não, excelência. Me explique.
– É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
– O que e isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
– Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
– Sim. Mas primário, e com esses antecedentes…”

(Luis Fernando Veríssimo)

História de um homem ridículo

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Por Alex Castro

Estava eu sentado em uma mesa de calçada, tomando meu café da manhã, quando passa por mim um homem ridículo.

Andando pela rua de forma confiante e decidida. Completamente ignorante do fato de ser tão ridículo. De estar tão fora do padrão, da regra, do correto. De ser tão feio, tão mal-vestido, tão tosco. O homem ridículo estava todo errado.

Não vou descrever o homem ridículo. Seria impossível descrevê-lo sem ser cúmplice de sua ridicularização, sem fazer vocês também o acharem ridículo.

Porque, um segundo depois, bateu a culpa, caiu a ficha, estourou a consciência.

E pensei: para uma ou mais pessoas, esse homem ridículo é a pessoa mais amada da vida, a pessoa mais importante do mundo. Para algumas pessoas idosas, ele sempre vai ser o bebê lindo que foi um dia, a criança cheia de promessa, o adolescente vigoroso e energético.

Que apesar dele estar passando pela rua a vinte metros de mim, de eu só estar enxergando-o por breves segundos, de eu nunca ter ouvido sua voz ou interagido com ele de qualquer maneira, de ele ser para mim só um figurante sem fala no ó-tão-importante filme da minha vida, de ele ser apenas uma figura de cartolina exemplificando o total oposto do padrão de beleza vigente….

Que ele era uma pessoa.

Caralho, uma pessoa.

Vocês entendem a enormidade disso?

Uma pessoa igual a mim. A MIM! Com os mesmos sentimentos. Que dá tanta importância a si mesmo quanto eu me dou. Que sempre viu tudo pelos seus próprios olhos. Que sempre sentiu todas as suas dores. Uma pessoa plena. Um homo sapiens adulto. Um indivíduo da espécie dominante do único planeta habitado que conhecemos. Por tudo que se sabe, ele é o ápice da evolução do cosmos. Ali, passando por mim, já se afastando. Tão ridículo.

Se esse homem ridículo morresse hoje, agora, fulminado por meu implacável julgamento, haveria gente sofrendo dor profunda, chorando, trabalhando o luto, relembrando melhores momentos compartilhados. Aquele homem ridículo deixaria um vazio talvez insuperável em corações que nem conheço.

Então, ele sumiu atrás de uma esquina, mas apareceu uma senhora de vestido verde, depois, uma adolescente patinadora, um ruivo e seu beagle, um gari de laranja, e foi quase que como uma sobrecarga de informação: todos pessoas. Cada um. Nenhum deles figurantes do filme da minha vida. Todos protagonistas de seus próprios filmes. Pessoas plenas.

Aí, finalmente, me dei conta: o único homem ridículo ali era eu.

Fonte: [ Papo de Homem ]