O pavê

Se tem uma coisa que gosto – mesmo! – é de fazer comida. Adoro! Me amarro em temperos, especiarias… Acredito que todo ser humano precisa pelo menos conseguir sobreviver fazendo o próprio almoço e jantar. É o básico.
 
Só que é aquilo… Nem todo mundo consegue ou quer aprender a cozinhar. Seja porque fica com medo do óleo espirrar na hora de fazer uma batata-frita, ou foi tentar fazer um arroz uma vez e ficou aquele “unidos venceremos”… Fora que cansa fazer comida todo dia. Ainda mais se for para uma pessoa só. Bem…
 
Eu sempre fui curioso e pra variar ficava lá na cozinha, vendo minha mãe preparar altos pratos, doces e salgados. O detalhe: ela aprendeu com me pai. Ele que sabia conzinhar e foi ensinando.
 
Vendo aquilo – e provando, claro – foi me dando a vontade de aprender. Eu pensava… “Nossa, o dia que meu pai for embora, minha mãe for embora, como que eu vou ficar sem essas comidas? Sem esses doces maravilhosos?”. Então lá pelas tantas tomei coragem e pedi: “Me ensina?”.
 
Comecei aprendendo a fazer café. Já contei isso numa outra ocasião… Aprendi também a fazer arroz, feijão, bolos, pudins, sopas, vatapás, churrasco, peixe frito… Até chegar no ponto de saber ler uma receita e conseguir prepará-la.
 
Um belo dia, tantos anos depois, foi a vez do meu filho experimentar um pavê que fiz num final de semana que ele estava lá em casa. Achou delicioso! Comia e pedia mais… Guardei aquilo como uma boa lembrança.
 
Como ele vinha de tempos em tempos, de 15 em 15 dias, já me programava para que quando ele viesse iria fazer algumas comidas que ele gostasse. Essa era uma das minhas formas de demonstrar carinho.
 
Quando falei que ele iria vir naquele fimd e semana, pelo telefone sorriu e pediu: “Pai, faz aquele pavê de pêssego que você fez naquele dia?”. Claro que sim, respondi.
 
Quando voltei do trabalho desci perto de um mercado para comprar os ingredientes. Estava morando em São Gonçalo naquela época e na rua tinha uns três ou quarto mercados. Era só ir num, e se não tivesse alguma coisa, dava para ir à pé nos outros.
 
Sabe aqueles avisos que a gente ignora mas estão sempre na nossa cara? Aquele mosquito que zune na hora de um pensamento, ou aquela topada que te impede de ir em frente? Pois é…
 
Fui no mercado e não tinha pêssego. Tinha creme de leite, maizena, biscoito, leite condensado… Vi os preços e fui pra outro mercado em busca dos pêssegos. Necas, também não tinha. Pensei, “Gente, que diacho de situação é essa? Todo mundo resolveu fazer pavê?”. Vi os preços e tudo mais caro. “Na volta eu passo lá e compro porque tá mais barato.”.
 
Meti o pé e fui meio que correndo para o outro mercado. Era sexta-feira, já estava ficando tarde e o medo era que fechassem. Uns quatro quarteirões depois entro no mercado perguntando, um pouco esbaforido: “Vocês tem pêssego? Vocês tem pêssego?”..
 
Finalmente tinha! Uhús! Uma mulher que parecia ser a gerente me olhou tipo “esse cara deve ser doente” e me apontou onde ficavam as latas. Abri aquele sorriso e, droga, a alegria durou pouco.
 
Na seção só tinha duas marcas. Aos preços de hoje, uma custava algo em torno de R$ 38 reais, a outra marca R$ 25. “Que diacho de pêssego caro da porra… Mas fazer o que, né? É meu filho…”, pensei. Peguei um pote e fui pra fila.
 
Não lembro exatamente se estava perto de um feriado, ou se tinha algum motivo para aquilo… Nem tinha reparado no tamanho das filas na hora que entrei. Carrinhos e mais carrinhos de compras na minha frente. Se fosse noutra ocasião nem pensava duas vezes, largava tudo ali e ia embora. Mas não, era o pavê do meu filho…
 
Foi passando o tempo e a fila parecia demorar cada vez mais. Não daria tempo de voltar no primeiro mercado, então pedi que vigiassem meu lugar e fui atrás dos outros ingredientes. Tinha tudo, menos maizena.
 
Voltei pra fila e quase uma hora depois consegui sair dali. Voltei andando uns 15 quarteirões e quando chego no primeiro mercado o vigia desce a útima porta, que fica pela metade. Pedi para me deixassem entrar e nada. “Já fechou!”, disse o segurança ríspido.
 
Olhei para uma senhora que estava passando as compras e pedi: “Dá para a senhora comprar pra mim uma caixa de maizena? Te pago aqui. É pro meu filh..!”. Nem deu tempo de completar, o segurança veio e fechou a porta na minha cara.
 
Meio sem acreditar naquilo fiquei ali, parado, pensando uns 5 minutos no que fazer… “Onde que eu iria arrumar maizena com tudo fechado? Será que naquelas lojas de conveniência tinha?”.
 
Nisso abre a porta do mercado para o povo que estava nos caixas sair. Vem saindo aquela senhora e me entrega uma caixa de maizena! Dei 10 reais, ela me olhou com espanto quando lhe disse “Pode ficar com o troco. Já me ajudou muito. Gratidão!” e lá fui eu correndo pra casa, pois meu filho estava para chegar. “Gratidão!”.
 
Enquanto relatava o ocorrido para minha namorada na época, tratava às pressas de fazer o jantar. Ele tinha chegado meio cansado. Todos jantam e volto eu para a cozinha para fazer o pavê.
 
Fiquei lá, sozinho, preparando tudo… Molho o biscoito no leite açucarado, coloco uma camada de biscoito no fundo da travessa, coloco um pouco de pêssegos fatiados por cima e… Gente! Cadê o creme? Esqueci de fazer o creme!
 
Pego uma panela pequena e coloco no fogo: um litro de leite, 3 gemas, 3 colheres de maizena peneirada, uma lata de leite condensado e uma gota de baunilha… Dá cinco minutos eu lá mexendo o creme e… PUF! O fogo apaga.
 
Pois é, senhoras e senhores… Quase 11 da noite acaba o gás do botijão. Já era o pavê. Tendo ligar para aqueles serviços de entrega; toca, toca e ninguém atende…
 
Quando chego na sala para dar a péssima notícia vejo que todos estão dormindo. E sonhando com o pavê.
 
Tampo a panela, tomo aquele merecido banho e já resignado me deito para dormir também… Afinal, o que eu poderia fazer? Já era…
 
Assim que boto a cabeça no travesseiro me vem a ideia! ATUM! Saltei da cama, corri para a cozinha e comecei a vasculhar os armários em busca de uma lata de atum… Ôba! Tinha!
 
Se tem uma coisa que aprendi foi a me virar em campings. Ali você aprende que tudo dá-se um jeito e que a solidariedade é a coisa mais rica que podemos ofecerer. Por lá aprendi várias coisas, inclusive que dá para fazer fogo com uma lata de atum. Como?
 
Bastou abrir a lata, retirar o atum, colocar álcool, retirar uma boca do fogão e encaixar como se fosse um fogareiro. Acendi, coloquei a panela com o creme para cozinhar e… Tânam! 🙂 Deu certo!
 
Na manhã seguinte, entre piadas e risadas sobre tudo que tinha acontecido, lá estava meu filho, saboreando aquela custosa sobremesa.
 
Ah… Como ficou o pavê? Ficou ótimo! rs…
Anderson Porto
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O dia em que quase morri

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Estava eu lá no sítio com meu filho, fazendo a inspeção das plantas, vendo quais tinham conseguido sobreviver depois do incêndio. Sim, pegou fogo em tudo.

O fogo veio lá de longe, de pastos longínquos, queimando todo o mato já ralo pela colheita da boiada e sendo empurrado pelos ventos. Veio e queimou todo o trabalho de quase 2 anos de plantio! O vizinho até tentou apagar em vão e veio me contar.

Eu via aquilo e queria chorar, mas fiquei me contendo por causa da presença do meu filho, que observava minha reação. Como tinha trazido mais mudas para plantar então pensei: “Vou aproveitar as cinzas, que servem de adubo, e plantar novamente. Foda-se!”.

Desembarquei as ferramentas o carro, coloquei as mudas na sombra e fui procurar locais ideias para plantá-las. Achei um perto da cerca e pensei “ali fica bem um pé de maracujá”. Só tinha que limpar um pouco o local.

Trouxe a muda para perto, peguei o facão, pedi para que o filhote se afastasse e comecei a limpar o que tinha sobrado de mato. Logo na primeira facãozada voou algum bicho da moita e me picou no rosto. Com o calor que tava nem senti direito. Continuei. Mais duas ou três facãozadas, voa o bicho de novo e me dá mais umas duas ferroadas. Pensei “pultaquil…” e em seguida me senti estranho.

Comecei a suar mas não de calor, tava com cara de reação às ferroadas. Era um bicho amarelo, tipo marimbondo… Meu filho me olhava, rindo… Falei pra ele “Ô ôu, parou a brincadeira. Deu merda.”. Comecei a me coçar todo, pés, mãos, costas, tudo. Sentia coceira até debaixo da unha. “Filho, vamos embora que estou passando mal. Essas ferroadas me ferraram”.

Guardamos tudo que deu, entramos no carro e seguimos para a rodovia. No meio do caminho, ainda na estrada de terra, minha vista começou a ficar esquisita. Estava tudo ficando BRANCO! Uma claridade absurda… Eu mal conseguia enxergar. As pupilas, pensei depois, deviam estar super dilatadas.

Para entrar na rodovia tive que pedir auxílio pro filhote: “Vê aí se vem carro porque não estou enxergando nada.”. Entramos na rodovia mas andando à 20 km/h. Quando não deu mais pra dirigir passei pro acostamento e parei. Liguei o alerta e avisei: “Se eu desmaiar está aqui o telefone. Ligue para a emergência ou para sua vó e passe as coordenadas de onde estamos”.

Eu suava frio, já não enxergava mais nada. A sensação era de que estava morrendo. Encostei no banco e fiquei pensando na situação, pois estava preocupado com a segurança de meu filho… E foi aí que finalmente veio a luz!

Pensei: “devo estar tendo um choque anafilático, pela alergia às ferroadas daquele bicho. Preciso de adrenalina!”. Agora, onde que eu ia arrumar adrenalina ali, naquela situação? Ora, ora, oras… rs…

Botei o óculos de sol, liguei o carro, acelerei o máximo que pude e voltei pra estrada. Ao me forçar a sentir medo por causa do risco que estávamos correndo, a adrenalina veio. Fez efeito em segundos. O suficiente para que após uns 2 km a vista voltasse a funcionar.

Quando saímos da estrada eu já estava praticamente normal de novo… Nem precisei de atendimento médico.

O que aconteceu depois? Bem… Tô aqui escrevendo isso, não estou? Então… rs…

Anderson Porto

O ESPELHO ENEVOADO

Kwe

Três mil anos atrás, havia um ser humano, como eu e você, que vivia perto de uma cidade cercada de montanhas. O ser humano estudava para tornar-se um xamã, para aprender a sabedoria de seus ancestrais, mas não concordava completamente com tudo aquilo que aprendia. Em seu coração, sentia que existia algo mais.

Um dia, enquanto dormia numa caverna, sonhou que viu o próprio corpo dormindo. Saiu da caverna numa noite de lua nova. O céu estava claro e ele enxergou milhares de estrelas. Então, algo aconteceu dentro dele que transformou sua vida para sempre. Olhou para suas mãos, sentiu seu corpo e escutou a própria voz dizendo: “Sou feito de luz; sou feito de estrelas”.

Olhou novamente para as estrelas e percebeu que não eram as estrelas que criavam a luz, mas antes a luz que criava as estrelas . “Tudo é feito de luz”, acrescentou ele, “e o espaço no meio não é vazio”. E ele soube tudo o que existe num ser vivo, e que a luz é a mensageira de vida, porque está viva e contém todas as informações.

Então, compreendeu que embora fosse feito de estrelas, ele não era essas estrelas. “Sou o que existe entre as estrelas”, pensou. Então, chamou as estrelas de tonal e a luz entre as estrelas, de nagual, e soube que o que criava a harmonia e o espaço entre os dois é a Vida ou Intenção. Sem a vida, o tonal e o nagual não poderiam existir. A Vida é a força do absoluto, do supremo, do criador que cria tudo.

Foi isso o que ele descobriu: tudo o que existe é uma manifestação do ser que denominamos Deus. Tudo é Deus. E ele chegou à conclusão de que a percepção humana é apenas a luz que percebe a luz. Também viu que a matéria é um espelho – tudo é um espelho que reflete luz e cria imagens dessa luz – e o mundo da ilusão, o Sonho, é apenas fumaça que não permite que enxerguemos quem realmente somos. “O verdadeiro nós é puro amor, pura luz”, disse ele.

Essa compreensão mudou sua vida. Uma vez que ele soube quem realmente era, olhou ao redor para os outros seres humanos e para o restante da natureza e ficou surpreso com o que viu. Viu a ele mesmo em tudo – em cada ser humano, em cada animal, em cada árvore, na água, na chuva, nas nuvens, na terra. E viu que a Vida misturava o tonal e o nagual de formas diferentes para criar bilhões de manifestações de Vida.

Naqueles poucos momentos ele compreendeu tudo. Ficou muito excitado, e seu coração encheu-se de paz. Mal podia esperar para contar ao seu povo o que descobrira. Mas não havia palavra para explicar. Tentou falar com os outros, mas eles não conseguiam entender. Eles perceberam que o homem havia mudado, que algo bonito se irradiava dos olhos e da voz dele.

Repararam que ele não julgava mais as coisas e as pessoas. Ele não era mais como os outros.

Ele entendia os outros muito bem, mas ninguém conseguia entendê-lo.

Acreditavam que ele fosse a encarnação viva de Deus, e ele sorriu quando escutou isso, e lhes disse: “É verdade. Sou Deus. Mas vocês também são Deus. Somos o mesmo, você e eu. Somos imagens de luz. Somos Deus”. Mesmo assim, as pessoas não o entenderam.

Havia descoberto que era um espelho para as outras pessoas, um espelho no qual podia observar a si mesmo. “Todo mundo é um espelho”, disse ele. Viu a si mesmo em todos, mas ninguém o viu como eles mesmos. Então compreendeu que todos estavam sonhando, mas sem consciência, sem saber o que realmente eram.

Não podiam enxergá-lo como eles mesmos porque havia uma parede de nevoeiro entre os espelhos. E essa parede era construída pela interpretação das imagens de luz – o Sonho dos seres humanos.

Então, ele percebeu que logo iria esquecer tudo o que aprendera. Queria lembrar-se de todas as visões que tivera; portanto, decidiu chamar a si mesmo de Espelho Enevoado, para que sempre soubesse que a matéria é um espelho e que a névoa do meio é o que nos impede de saber quem somos.

Ele disse: “Sou o Espelho Enevoado, porque estou vendo a mim mesmo em todos vocês, mas nós não reconhecemos um ao outro por causa do nevoeiro entre nós. Esse nevoeiro é o Sonho, e o espelho é você, o sonhador”.

___
por Don Miguel Ruiz

(Texto extraído do livro “Os Quatro Compromissos”; Editora Best Seller).

A lição da hippie de Palmas

pulseiras

Uma vez estava eu em Ilha Grande, praia de Palmas, acampado em meio a uma galera hippie. A rotina era aquela bem básica: acordar, tomar café, escovar os dentes, curtir praia, sol, cachu, almoçar, tomar umas cervas, curtir uma fogueira, um forró e chapar a cabeça – não necessariamente nessa ordem.

Numa daquelas noites conheci uma menina, amiga do pessoal. Dançamos, rimos muito, curtimos a noite e de manhã acordamos nus em minha barraca. Ela se levantou e saiu. Decidi levantar também, mas como o sol estava muito forte, fiquei sentado numa mesa à sombra, observando os transeuntes de longe, ainda de ressaca; bateria tipo nuns 30%.

Descobri que ela fazia uns trabalhos artesanais bem bonitos, uns mobiles, filtros de sonhos e pulseiras, sentada numa canga perto da praia. Calculei que ela passou ali umas duas horas aproximadamente, fazendo aqueles trabalhos. Eu já na segunda ou terceira cerveja. De repente se levantou e veio falar comigo. Me disse: “- Já produzi demais por hoje. Bora dar uma volta?”

Enfim, passados sei lá quantos anos desse episódio, finalmente entendi o que ela quis dizer com aquilo.

Gratidão, seja lá onde você estiver.

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Anderson Porto

A Lagarta e a Alice

a lagarta e a alice

A Lagarta e Alice olharam-se uma para outra por algum tempo em silêncio: por fim, a Lagarta tirou o narguilé da boca, e dirigiu-se à menina com uma voz lânguida, sonolenta.

“Quem é você?”, perguntou a Lagarta.

Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente: “Eu – eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento – pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então.

“O que você quer dizer com isso?”, perguntou a Lagarta severamente. “Explique-se!”

“Eu não posso explicar-me, eu receio, Senhora”, respondeu Alice, “porque eu não sou eu mesma, vê?”

“Eu não vejo”, retomou a Lagarta.

“Eu receio que não posso colocar isso mais claramente”, Alice replicou bem polidamente, “porque eu mesma não consigo entender, para começo de conversa, e ter tantos tamanhos diferentes em um dia é muito confuso.”

“Não é”, discordou a Lagarta.

“Bem, talvez você não ache isso ainda”, Alice afirmou, “mas quando você transformar-se em uma crisálida – você irá algum dia, sabe – e então depois disso em uma borboleta, eu acredito que você irá sentir-se um pouco estranha, não irá?”

“Nem um pouco”, disse a Lagarta.

“Bem, talvez seus sentimentos possam ser diferentes”, finalizou Alice, “tudo o que eu sei é: é muito estranho para mim.

“Você!”, disse a Lagarta desdenhosamente. “Quem é você?”

O que as trouxe novamente para o início da conversação. Alice sentia-se um pouco irritada com a Lagarta fazendo tão pequenas observações e , empertigando-se, disse bem gravemente:”Eu acho que você deveria me dizer quem você é primeiro.”

“Por quê?”, perguntou a Lagarta.

Aqui estava outra questão enigmática, e, como Alice não conseguia pensar nenhuma boa razão, e a Lagarta parecia estar muito chateada, a menina despediu-se.

“Volte”, a Lagarta chamou por ela. “Eu tenho algo importante para dizer!”

Isso soava promissor, certamente. Alice virou-se e voltou.

“Mantenha a calma”, disse a Lagarta.

“Isso é tudo?”, retrucou Alice, engolindo sua raiva o quanto pôde.

“Não”, respondeu a Lagarta.

Alice pensou que poderia muito bem esperar, já que não tinha nada para fazer, e talvez no fim das contas ela poderia dizer algo que valesse a pena. Por alguns minutos a Lagarta soltou baforadas do seu cachimbo sem falar; afinal, ela descruzou os braços, tirou o narguilé da boca novamente e disse:

“Então você acha que mudou, não é?”

“Temo que sim, Senhora”, respondeu Alice. “Não consigo lembrar das coisas como antes – e não mantenho o mesmo tamanho nem por dez minutos!”

“Não consegue lembrar que coisas?”, continuou a Lagarta.

“Bem, eu tentei recitar” Como a abelhinha estava atarefada, mas fiz tudo diferente!” Alice replicou numa voz muito melancólica.

“Repita “Você está velho, Pai William”, pediu a Lagarta. Alice cruzou as mãozinhas e começou:

Você está velho, Pai Guilherme,
disse o jovem admirado,
E seu cabelo está ficando branquinho,
Mas você ainda planta bananeira,
Você acha, que na sua idade, isso está certo?
Na minha juventude, Pai Guilherme respondeu,
Tinha medo de perder a cabeça,
Mas agora eu sei que não posso perder
Porque não paro de plantar bananeira e estou inteiro.
Você está velho, já falei uma vez, retrucou o jovem,
E está engordando demais,
Mas ainda entra aqui dando cambalhotas,
Por favor, como você faz isso?
Na minha juventude, disse o velho,
Eu me mantive em forma,
Usando esse ungüento – é bem baratinho,
Posso vender uns dois potes para você?
Você está velho, disse o jovem, e seus dentes estão fraquinhos.
Para mastigar qualquer coisa dura.
Mas você ainda come um ganso com osso e tudo
Por favor, como você faz isso?
Na minha juventude, disse o velho, eu acreditava na Lei,
E discutia tudo com minha mulher,
O treino que fiz naquela época,
Durou para o resto da minha vida!
Você está velho, disse o jovem, e ninguém pode acreditar
que você ainda enxerga bem.
Mas ainda assim você equilibra uma enguia na ponta do nariz.
O que deixou você tão esperto?
Já lhe respondi três perguntas, agora chega,
Disse o velho, e não pense que você me agrada!
Você acha que vou perder meu dia ouvindo suas bobagens?
Pode sumir, ou vai levar um pontapé no traseiro!
“Isso não está dito certo”, disse a Lagarta.

“Não completamente, eu receio”, respondeu Alice timidamente, “algumas das palavras podem ter sido trocadas”.

“Está errado do começo ao fim”, afirmou a Lagarta decididamente. Então fez-se um silêncio por alguns minutos.

A Lagarta foi a primeira a falar.

“De que tamanho você quer ser?”, ela perguntou.

“Oh, eu não ligo para qual tamanho”, respondeu Alice apressadamente, “apenas um que não fique mudando sempre, a senhora sabe.”

“Eu não sei”, retrucou a Lagarta.

Alice não disse mais nada: ela nunca fora tão contradita em toda sua vida antes e sentia que estava perdendo a paciência.

“Você está satisfeita agora?”, indagou a Lagarta.

“Bem, eu gostaria de ser um pouco maior, Senhora, se não se importar”, disse Alice, “oito centímetros é um tamanhozinho meio pequeno demais.”

“É um ótimo tamanho certamente!”, vociferou a Lagarta,levantando-se enquanto falava (ela tinha exatamente oito centímetros de altura).

“Mas eu não estou acostumada com isso!”, alegou a pobre Alice em um tom consternado.
“Você se acostumará com o tempo”, retrucou a Lagarta, e colocou o narguilé na boca, começando a fumar novamente.

Desta vez Alice esperou pacientemente até a Lagarta querer falar novamente. Depois de um ou dois minutos a Lagarta tirou o cachimbo da boca, e bocejou uma ou duas vezes e espreguiçou-se. Então desceu do cogumelo e arrastou-se para longe, simplesmente observando, ao sair: “Um lado irá fazê-la crescer e o outro irá fazê-la diminuir.”

“Um lado do quê? Outro lado do quê?”, pensava Alice consigo mesma.

“Do cogumelo”, respondeu a Lagarta, como se Alice tivesse falado alto, e já no momento seguinte ela estava fora da vista.

Alice permaneceu olhando pensativamente para o cogumelo por um minuto, tentando compreender quais eram os dois lados da planta, e, como ela era perfeitamente redonda, sentiu-se em meio a uma difícil questão. Entretanto, afinal a menina esticou seus braços o mais que pôde em torno do cogumelo e cortou um pedaço da borda com cada mão.

“E agora, qual é qual?” disse Alice para si mesma, mordiscando um pouco da mão direita para sentir o efeito. No momento seguinte ela sentiu um violento golpe debaixo do queixo: ela batera no seu pé.

Ela estava muito assustada com esta súbita mudança, mas sentiu que não havia tempo a perder, pois estava encolhendo rapidamente. Alice colocou mãos à obra para comer do outro pedaço. Seu queixo estava tão fortemente pressionado contra seu pé, que não havia espaço para abrir a boca; mas ela conseguiu afinal, e esforçou-se para engolir um bocado da mão esquerda.

“Puxa, minha cabeça está livre afinal!”, disse Alice num tom de prazer, que mudou para um tom alarmado no momento seguinte, quando ela descobriu que seus ombros não estavam em lugar nenhum à vista: tudo o que ela podia ver ao olhar para baixo era uma imensidão de pescoço, que parecia nascer como um caule sobre um mar de folhas verdes que se estendiam lá embaixo.

“O que podem ser todas estas porcarias verdes?”, disse Alice.” E para onde foram meus ombros? E oh, minhas pobres mãos, como é isso, eu não posso vê-las”. Ela as estava movendo enquanto falava, mas parecia que não adiantava nada, exceto por um leve chacoalhar nas distantes folhas verdes.

Como parecia não haver chances de trazer suas mãos até a cabeça, Alice tentou levar a cabeça até elas e descobriu com alegria que seu pescoço podia tombar facilmente em qualquer direção, como se fosse uma serpente. A menina estava justamente conseguindo curvar seu pescoço em um gracioso ziguezague que a levaria a um mergulho nas folhas, que ela achava serem as copas das árvores sob as quais anteriormente vagueara, quando um agudo silvo a fez retroceder rapidamente: uma grande pomba voava contra seu rosto, e batia em suas faces com as asas.

Fonte: (As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lews Carroll – tradução de Célia Ramos)

Olhos de cão azul

Gabriel García Márquez

(formatação de texto adaptada para “webreading“)

Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores.

Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: “Olhos de cão azul”. Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: “Isso. Já não o esqueceremos nunca”. Saiu da órbita suspirando: “Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: “Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas”; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: “Você não sente o frio”. E eu lhe disse: “Às vezes”. E ela me disse: “Você deve senti-lo agora”.

E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. “Agora o sinto”, disse. “E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado”. Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-la, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho.

Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. “Estou vendo você”, disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: “Estou vendo você.” E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. “É impossível”, disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: “Porque você tem o rosto voltado para a parede”.

Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. “Acho que vou me resfriar”, disse. “Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. “Faça alguma coisa contra isso”, disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: “Vou me virar para a parede”. Ela disse: “Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas”. Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. “Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas”.

E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: “Às vezes creio que sou metálica”. Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: “Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio”. E ela disse: “Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado”.

Aproximou-se mais do abajur. “Teria gostado de ouvir você”, disse. E ela disse: “Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. “Olhos de cão azul.” E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:

“Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul”. E ela disse que ia aos restaurantes e dizia para os garçons, antes de fazer o pedido: “Olhos de cão azul”. Mas os garçons lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem lembrado nunca ter dito isso nos seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e riscava com a faca o verniz das mesas: “Olhos de cão azul”. E nos cristais embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: “Olhos de cão azul”. Disse que uma vez chegou a uma drogaria e percebeu o mesmo cheiro que tinha sentido no seu quarto uma noite, depois de ter sonhado comigo: “Deve estar perto”, pensou, vendo a cerâmica limpa e nova da drogaria.

Então se aproximou do vendedor e lhe disse: “Sempre sonho com um homem que me disse: “Olhos de cão azul”. E disse que o vendedor a havia olhado nos olhos e dito: “Na verdade, moça, a senhora tem os olhos assim”. E ela disse: “Preciso encontrar o homem que me diz isso nos sonhos”. E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela permaneceu olhando o ladrilho limpo do chão e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa e se ajoelhou e escreveu com o batom sobre o ladrilho, com grandes letras vermelhas: “Olhos de cão azul”. O vendedor regressou de onde se encontrava. Disse-lhe: “Moça, a senhora sujou o ladrilho”. Deu-­lhe um pano úmido, dizendo: “Limpe-o”. E ela disse, ainda junto ao abajur, que passou a tarde toda agachada, lavando o ladrilho e dizendo: “Olhos de cão azul”, até que as pessoas se aglomeraram na porta e disseram que estava louca.

Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. “Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você”, disse. “Agora creio que amanhã não a esquecerei. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras com que posso encontrar você”. E ela disse: “Você mesmo as inventou desde o primeiro dia”. E eu lhe disse: “Inventei-as porque vi seus olhos cor de cinza. Mas nunca me lembro delas na manhã seguinte.” E ela, com os punhos fechados junto ao abajur, respirou fundo: “Se pelo menos pudesse recordar agora em que cidade estive escrevendo isso”.

Seus dentes apertados resplandeceram sobre a chama. “Eu gostaria de tocar em você agora”, disse. Ela levantou o rosto que estivera olhando a luz: levantou o olhar ardente, assando-se também do mesmo jeito que ela, do mesmo jeito que suas mãos: e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, me balançando na cadeira. “Você nunca me tinha dito isso”, disse. “Agora digo, e é verdade”, disse.

Do outro lado do abajur ela me pediu um cigarro. O toco tinha desaparecido dos meus dedos. Esquecera que estava fumando. Disse: “Não sei por quê, não posso lembrar onde o escrevi”. E eu lhe disse: “Pela mesma razão pela qual eu não poderei lembrar as palavras amanhã”. E ela disse, triste: “Não. É que às vezes creio que também sonhei isso”. Fiquei em pé e andei até o abajur. Ela estava um pouco mais para lá, e eu continuava andando, com os cigarros e os fósforos na mão, e não passaria o abajur. Aproximei dela o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para atingir a chama, antes que eu tivesse tempo de acender o fósforo.

“Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras: ‘Olhos de cão azul”, disse. “Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você”. Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios.”Olhos de cão azul”, suspirou, recordando, com o cigarro jogado sobre o queixo e um olho semifechado. Aspirou a fumaça, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: “Já isto é outra coisa. Estou me sentindo mais quente”. E disse-o com a voz um pouco morna e fugidia, como se não o tivesse dito realmente, mas como se houvesse aproximado o papel à chama enquanto eu lia: “Estou entrando — e ela tivesse continuado com o papelzinho entre o polegar e o indicador, virando-o, enquanto ia se consumindo e eu acabava de ler — ­… mais quente”, antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão amassado, diminuído, convertido num leve pó de cinza. “Assim, é melhor”, disse. “Às vezes me dá medo ver você assim. Tremendo junto ao abajur”.

Há vários anos nos víamos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherzinha na madrugada.

Agora, junto ao abajur, estava me olhando. Eu lembrava que antes também me havia olhado assim, desde aquele remoto sonho em que fiz a cadeira girar sobre as pernas traseiras e fiquei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi nesse sonho que perguntei a ela pela primeira vez:”Quem é a senhora?” E ela me disse: “Não lembro”. Eu lhe disse: “Mas acredito que nos vimos antes”. E ela disse, indiferente: “Creio que alguma vez sonhei com o senhor, com este mesmo quarto”. E eu lhe disse: “É isso. Já começo a lembrar”. E ela disse: “Que curioso. É verdade que temos nos encontrado em outros sonhos”.

Deu duas chupadas no cigarro. Eu estava ainda em pé em frente ao abajur, quando fiquei olhando para ela de repente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas já não de metal duro e frio, senão de cobre amarelo, macio, maleável. “Gostaria de tocar em você”, voltei a dizer. E ela disse: “Você jogaria tudo por água abaixo”, voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. “Talvez, se você se virar por trás do abajur, acordaríamos sobressaltados quem sabe em que parte do mundo”. Mas eu insisti: “Não importa”. E ela disse:”Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando acordar, terá esquecido tudo”. Comecei a me mexer em direção ao canto. Ela ficou por trás, esquentando as mãos sobre a chama. E eu ainda não estava junto da cadeira quando a ouvi falar às minhas costas: “Quando acordo à meia-noite, fico revirando-me na cama, com os fios do travesseiro ardendo no joelho e repetindo até o amanhecer: ‘Olhos de cão azul'”.

Então fiquei com o rosto na parede. “Já está amanhecendo”, disse sem olhar para ela. “Quando deram duas da manhã, estava acordado, já fazia bastante tempo.” Dirigi-me até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: “Não abra essa porta”, disse. “O corredor está cheio de sonhos difíceis”. E eu lhe disse: “Como você sabe disso?” E ela me disse: “Porque há pouco estive ali e tive que voltar quando descobri que estava dormindo sobre o coração”.

Eu mantinha a porta entreaberta. Movi um pouco o batente, e um ar frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez, virei-me, mexendo ainda o batente montado em gonzos silenciosos, e lhe disse: “Creio que não há nenhum corredor aqui fora. Sinto o cheiro do campo”. E ela,já um pouco longe, me disse: “Conheço isso mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo”. Cruzou os braços sobre a chama. Continuou falando: “É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade”. Eu lembrava ter visto a mulher num outro sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha que descer para o café da manhã. E lhe disse: “De todas maneiras, tenho que sair daqui para acordar”.

Lá fora o vento bateu um instante, ficou quieto depois, e ouviu-se a respiração de alguém adormecido que acabava de virar-se na cama. O vento do campo suspendeu-se. Já não houve mais odores. “Amanhã vou reconhecer você por isso”, disse. “Vou reconhecê-la quando vir na rua uma mulher que escreva nas paredes: ‘Olhos de cão azul'”. E ela, com um sorriso triste — que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível —, disse: “Não obstante, você não lembrará nada durante o dia”. E voltou a pôr as mãos sobre o abajur, com a expressão obscurecida por uma névoa amarga: “Você é o único homem que, ao acordar, não se lembra nada do que sonhou”.

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Gabriel García Márquez nasceu em 1928 na pequena cidade de Aracataca, na Colômbia. Cresceu ao lado de seu avô materno, um coronel da guerra civil no princípio do século. Estudou num colégio jesuíta e posteriormente iniciou o curso de Direito, logo abandonado em virtude de seu trabalho como jornalista. Em 1954 foi para Roma, como correspondente do jornal onde escrevia, e desde então tem vivido em cidades como Paris, New York, Barcelona e México, em um exílio mais ou menos compulsório. Apesar de seu talento como ficcionista e premiado escritor, continua exercendo a profissão de jornalista.

Em 1961, recebeu o Prêmio Esso de Literatura Colombiana, em 1971 foi declarado “Doutor Honoris Causa” pela Universidade de Colúmbia, em em Nova York; em 1972, recebeu o Prêmio Rômulo Gallegos. Em 1981, o governo francês concedeu-lhe a condecoração “Légion d’Honneur” (Legião de Honra).

No dia 21 de outubro de 1982 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, quinze anos depois de ter escrito “Cem Anos de Solidão”, seu maior sucesso, traduzido em 35 idiomas e com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.

Em nossos dias circula pela Internet um texto cuja autoria foi atribuída a García Márquez, um tipo de “carta de despedida”, pois estaria o autor prestes a falecer em virtude de um câncer linfático. Segundo a “Crônica do falso adeus” de Orlando Maretti, “Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os amigos, … não apenas negou, pela imprensa, que estivesse em estado terminal como também espinafrou a pieguice do texto e seu autor, identificando-o como um subliterato latino-americano. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, o escritor colombiano lamenta a repercussão do texto.”

Orlando Maretti acrescenta: “…a primeira pista para duvidar da autoria é a insistência na citação vocativa de Deus. Pelo que se sabe, García Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe seu perfil lembra um religioso.”

O escritor foi reverenciado na XIII Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em 2007.

BIBLIOGRAFIA:

Romances, contos e crônicas:

· Folhas mortas
· Ninguém escreve ao coronel
· Cem anos de solidão
· Doze contos peregrinos
· O general em seu labirinto
· O amor nos tempos do cólera
· A aventura de Miguel Littin clandestino no Chile
· Cheiro de Goiaba: Conversas com Plinio Apuleyo Mendoza
· Como Contar um Conto
· Crônica de uma Morte Anunciada
· Do Amor e Outros Demônios
· O Enterro do Diabo: A Revoada
· Entre Amigos
· Os Funerais da Mamãe Grande
· A Má Hora (o Veneno da Madrugada)
· A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada
· Olhos de Cão Azul
· O Outono do Patriarca
· Relato de um Náufrago
· Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez: Me Alugo Para Sonhar
· Notícia de um seqüestro
. Viver para contar (memórias)
. Memórias de minhas putas tristes
. Obra jornalística – Vol. 1 – Textos caribenhos
. Obra jornalística – Vol. 2 – Textos andinos.
. Obra jornalística – Vol. 3 – Da Europa e da América, 1955 1960
. Obra jornalística – Vol. 4 – Reportagens políticas
. Obra jornalística – Vol. 5 – Crônicas

Infanto-juvenis:

. A última viagem do navio fantasma
. Maria dos prazeres
. A sesta da terça-feira
. A luz é como a água
. Um senhor muito velho com umas asas enormes
. O verão feliz da senhora Forbes

O texto acima foi publicado no livro de mesmo título e extraído de “Contos Latino Americanos Eternos”, Ed. Bom Texto – Rio de Janeiro, 2005, pág. 149, organização e tradução de Alicia Ramal.

Fonte: [ Releituras ]

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Em busca de suas outras metades

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“Segundo a mitologia grega, os seres humanos foram criados originalmente com quatro braços, quatro pernas e uma cabeça com duas faces. Temendo seu poder, Zeus os dividiu em dois seres separados, condenando-os a gastar suas vidas em busca de suas outras metades.”

Fonte:
[ If you play The Game you win a tear stain ]