Anjos do asfalto

Faltava 20 minutos para o ônibus com a minha noiva chegar. Sim, já fui noivo. Acreditei em um monte dessas baboseiras padronizadas que o sistema criou para nos enganar…

Estava com 20 anos e achava que viver era casar, ter filhos… O problema é que eu estava morando em Niterói e ela estava chegando na rodoviária do Rio!

Então lá fui eu: corri pro estacionamento para pegar o carro, virei a chave, liguei o som e quando vi já estava subindo a ponte. Mal sabia o que me esperava…

Estava entretido com lembranças e esperanças, pois haviam passado alguns meses desde a última vez que tinhamos nos visto. Naquele tempo não tinha Internet, o namoro era por telefone, por cartas… Pois é… Isso mesmo que você está pensando… Naquela seca de meses sem transar…

Então estava eu lá perdido em pensamentos, dirigindo no modo automático, chegando no vão central (para quem não conhece, a parte mais alta da ponte) e… Vrrrrrrroooooooommmmmmnnnnn… O carro desliga.

Aproveitei que estava em movimento, passei terceira e virei a chave, para ver se pegava no tranco… Ligou! O suficiente para passar do vão central… Mas não adiantou, assim que comecei a descer o carro desligou novamente… “Será que é bateria? Pane elétrica? Será que soltou algum cabo? Será que…”, pensava eu enquanto a velocidade diminuia, dirigindo com o pé na embreagem, para que o carro deslizasse o máximo possível… até parar.

Olhei para o painel e o marcador da bomba de gasolina acusava: agora só reboque, acabou o combustível. Na pressa de sair e com os pensamentos ocupados com delícias carnais, não me ocorreu lembrar de verificar se tinha combustível no tanque.

Meti a mão na carteira e tomei um susto: só tinha 5 reais. E faltava aproximadamente 5 minutos para minha noiva chegar, lá na rodoviária. Pensei lá comigo: “Bem, não vai dar para chegar a tempo. O melhor que posso fazer é ligar o alerta e aguardar o reboque.”. Naquela época não tinha celular.

E foi o que fiz. Deitei parcialmente o banco, coloquei o retrovisor numa posição que me permitisse ver os carros chegando e fiquei ali deitado, agora pensando no risco de algum acidente, algum carro vir correndo e porrar por trás. Por via das dúvidas botei o cinto.

Do outro lado da rodovia para um guincho e o rapaz grita pra mim: “Estou indo rebocar um carro agora, na volta passo aí para te pegar, ok?”. Só fiz o sinal de joinha. Beleza, já era a noite…

Aí fiz o que melhor sabia e podia fazer naquele momento: tirar um cochilo. Deitei mais um pouco o banco, ajeitei o retrovisor e peguei no sono. De repente, no meio daquele “zum… zummm…” dos carros passando, um barulho diferente me acordou.

Saca aquele barulho de motor de carro potente mas velho? Olhei pelo retrovisor e – sério! – vi um GALAXIE 500 rosa, conversível, todo pichado / grafitado, diminuindo a velocidade e parando atrás de mim. Pensei: “deu merda!” e já me encolhi.

Ainda olhando pelo retrovisor vejo a porta do motorista abrir e descer um cara de uns 2 metros de altura, careca, forte bagarai, tatuado, de blusa branca e calça jeans. O detalhe é que ele estava de bota. Só que não era só uma bota… Quando ele começou a andar na minha direção dava para ouvir o barulho de.. esporas! Esporas, bicho! Fala sério!

Comecei disfarçadamente a tentar fechar as janelas e aquele barulho foi se aproximando… Se aproximando… Até que o cara se curva, olha pra dentro do carro, me vê sentado no lado do carona, segurando uma chave de fenda e com aquela cara – em pânico – de “num mexe comigo senão vai acontecê uma disgraça”… rs…

“– Tá tudo bem contigo aí? Cabou a gasolina, né?”. Aparentemente balbuciei um “é”… “Olha só… O que posso fazer é te rebocar até algum posto de gasolina. Nesse horário é muito difícil o reboque da ponte”.

Devo ter mimetizado algo parecido com um “tá”, porque ele andou na direção do carro dele, ligou, fez uma manobra e parou em frente ao meu. Em seguida desceu, abriu o porta-mala e de lá tirou uma corrente gigante, do meio de um monte de trecos.

Eu na mesma hora pensei “Fudeu… Esse punk de esporas vai me rebocar sei lá pra onde, me matar e acabou-se o mundo”… Até tentei esboçar alguma reação, me levantando e tentando acompanhar o que ele estava fazendo…

Ele foi me explicando: “Não deixa a corrente bater no chão, senão pode enfraquecê-la e soltar faíscas. Também não deixe ela muito esticada, porque senão num tranco é capaz de romper. Vai controlando com o freio, tá? E deixa em ponto morto. Você consegue fazer isso?” e eu “Claro, claro… Eu só preciso parar ali na rodoviária, para buscar a minha noiva”. Foi a senha para começar a doideira.

Entramos nos carros. Ele ligou o dele, gritou um “vira a chave para não trancar as rodas” e começou a puxar. Passados uns 100 metros ele estabilizou numa velocidade e com isso consegui deixar o carro seguindo suave, bem devagar. Dali foi tranquilo até a rodoviária. Ele foi freiando e paramos. Puxei o freio de mão e avisei que não ia demorar.

Corri até a saída dos passageiros mas não tinha mais ninguém lá. Ela já tinha ido embora.

Na volta lembro que pensei: “ele deve ter ido embora com o carro; foda-se, pelo menos estou vivo”. Não tinha. Estava lá me esperando.

Sorri meio que sem acreditar, pois não sabia o que viria em seguida… Entramos nos carros e ele reboca pra direita, ali por São Cristóvão, uns 10 minutos de suspense… até um posto de uma cooperativa de taxis ali perto.

Agradecendo por estar vivo, são e salvo, informo que não tinha nem como retribuir $$$ pela gentileza, pois não tinha dinheiro nem para gasolina. Ele me diz: “Cara, só não te dou da minha gasosa porque tá no final também. Mas toma aqui esses 10 reais, que já ajudam”.

Eu agradeci de todas as formas possíveis, coloquei 15 reais de combustível e fui embora pra casa da minha noiva, pensando em tudo que tinha acontecido, em como eu era abençoado e como eu tinha sido um babaca preconceituoso com uma pessoa que foi um verdadeiro “anjo” ali naquela situação.

E todas as vezes que me pego sendo preconceituoso com alguém, por quaisquer aparentes motivos, me lembro desse acontecido.

Anderson Porto

GALAX SÃO PAULO 13/12/2010 - JORNAL DO CARRO - CARRO DO LEITOR - Fotos gerais do Ford Galaxie 500 do leitor Gilberto

Imagina esse carro todo pichado de rosa, azul, uns desenhos lôkos… rs…

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Esta entrada foi postada em Poesias.

Um comentário em “Anjos do asfalto

  1. H. Lavin. M. disse:

    Conhecimentos e aprendizados: provém de maneiras inusitadas e por outras nas mais duras possíveis.

    Curtir

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