A quadratura do círculo

Squaring_the_circle

 

Há um preço a pagar pela divisão e isolamento. A democracia não pode desabrochar em meio ao ódio. A justiça não pode se enraizar em meio a raiva. Devemos abandonar a indiferença. Devemos abandonar a apatia. Devemos abandonar o medo.
___
Thurgood Marshall

Para quem ainda não entendeu o que acontece aos noves fora no mundo da política, posso tentar resumir: o mal precisa do bem e o bem precisa do mal.

Como assim? Basicamente eles trabalham – todos – para que o sistema continue funcionando, a máquina girando, o trabalho acontecendo e uma pequena parte do dinheiro circulando.

O símbolo dos poderosos, como todos sabem, é um funil.

É como se fosse uma vaca leiteira cheia de tetas, onde eles são donos da vaca, das tetas, do pasto, do sino pendurado. A nós cabe um dedalzinho de leite…, e só.

Isso se você não for alérgico, porque aí vai ter que procurar hospital e eles são donos do hospital também. São eles que formam os médicos e eles que controlam os remédios. A ambulância e as ruas e as estradas… São deles.

Aí eis que volta e meia o mal precisa de um Judas e o bem de um Salvador. Ou vice-versa. Essa peça antiga de mais de 2 mil anos eles já aprenderam direitinho como que faz. É tudo encenação para manter aqueles que dormem mais e mais cansados, sonolentos, sem ter paz.

Existem práticas execráveis que o bem não poderia assumir autoria. Daí vem o mal e faz. Existem benesses que não poderiam ser praticadas pelo mal, então vem o bem e faz.

E assim ficamos todos nessa roda…

Girando, girando, girando…

Até o fim.

(mas não haverá fim, assim como não houve princípio)

Ode ao poeta sumido

 

Hoje me veio aquela baita saudade
duma face mágica que colore o dia,
e torna tenro o perspassar da rotina.

Onde estará você, poeta?

Escondido talvez, no porão de algum navio,
a singrar tempestades e mares bravios?
Talvez escalando montanhas de vidro?
Quem sabe vasculhando o centro da Terra?
Descansando enquanto medita numa prece?
Ou encarando algum trabalho que enobrece?

É bem capaz de estares cá e lá,
distraindo a inquieta mente,
… … … … [quem diria]
duelando contra costumes morais,
ou simplesmente lendo jornais,
enquanto toma um café pingado na padaria…

Por onde andas, poeta?
Cadê aqueles pontos de vista?
… … (que de tanto expô-los,
… …  portanto vê-los,
… … já são nossos selos.)
Cadê aquele olhar que evidencia?

Na boa… Gente!
Peçamos todos que o poeta volte?
— Volte, poeta, volte!

Apareça! Traga aquela lanterna,
uma claridade que ilumina…

Mostre para nós um virtuoso caminho,
riscando flamejante o céu entre as estrelas
numa estrada enlameada, escura e fria.

Eu? Pra variar cá te encontro,
no mesmo lugar, a te aguardar,
na entrada da caverna,
talvez saída.

(Anderson Porto)

caverna

ARMADILHAS DO EGO

1546271_1014470731912675_1213563055297010283_n

“Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego.

Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque mexe com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego.

Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia, mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego.

Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego.

Sempre esteja consciente ao se sentir superior.

A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica.

O ego adora entrar pela porta de trás.

Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga e, então, distorcê-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”.

Superioridade, julgamento e condenação.

Essas são armadilhas do ego”
___
Mooji

Morangos à beira do abismo

10460706_10152638949349670_6008088615523264278_n

“Um homem ia feliz pela floresta quando, de repente, ouviu um urro terrível. Era um leão.

Ele teve muito medo e começou a correr. O medo era muito, a floresta era fechada.

Ele não viu por onde ia e caiu num precipício.

No desespero agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra.

Ali ficou, dependurado sobre o abismo.

De repente olhou para a sua frente: na parede do precipício crescia um pezinho de morangos.

Havia nele um moranguinho, gordo e vermelho, bem ao alcance da sua mão.

Fascinado por aquele convite, para aquele momento, ele colheu carinhosamente o moranguinho, esquecido de tudo o mais. E o comeu. Estava delicioso!

Sorriu, então, agradecido de que na vida houvessem morangos à beira do abismo…”
___
(Rubens Alves, em “Morangos à beira do abismo”)

Proudhon e o Anarquismo

"Eu defino a liberdade como o direito de fazer qualquer coisa que não prejudique outros." ___ Proudhon

“Eu defino a liberdade como o direito de fazer qualquer coisa que não prejudique outros.”
___
Proudhon

Proudhon definiu o anarquismo, sem dúvida, não apenas como desafio, mas para explorar as características paradoxais da palavra. Ele percebera a ambigüidade do grego Anarchos e voltara a usá-la exatamente por isso – para ressaltar que a crítica que se propunha fazer à autoridade não implicava, necessariamente, uma defesa da desordem.

As passagens em sua obra em que ele utiliza pela primeira vez “anarquista” e “anarquia” são tão importantes, do ponto de vista histórico, que merecem uma citação; já que não apenas mostram as duas palavras sendo usadas pela primeira vez com um sentido socialmente positivo, mas contêm, em embrião, a justificativa pelo direito natural, que os anarquistas têm em geral aplicado em suas discussões em defesa de uma sociedade não-autoritária.

“Qual será a forma de governo no futuro?, pergunta ele. Ouço alguns de meus leitores responderem: Ora, como podes fazer tal pergunta? Sois republicano! Sim, mas essa palavra não diz nada. Res publica, isto é, coisa pública. Pois bem, então quem quer que se interesse por assuntos públicos – não importa sob qual forma de governo, pode intitular-se republicano. Até os reis são republicanos. Bem, então sois democrata – Não… – Então o quê? – Um anarquista!”

Proudhon vai mais longe, sugerindo que as verdadeiras leis que regem a sociedade não têm nada a ver com autoridade; elas não são impostas de cima, mas têm origem na própria natureza da sociedade. E considera que a livre emergência de tais leis deve ser o objetivo do esforço social.

Assim como o privilégio da força e da astúcia bate em retirada ante o firme avanço da justiça, sendo finalmente aniquilado para dar lugar à igualdade, assim também a soberania da vontade cede lugar à soberania da razão e deve, finalmente, perder-se no socialismo científico… Assim como o homem busca a justiça na igualdade, a sociedade procura a ordem na anarquia. “Anarquia – a ausência de um senhor, de um soberano -, tal é a forma de governo da qual nos aproximamos a cada dia que passa.”

O aparente paradoxo de ordem na anarquia – eis aqui a chave para a mudança de conotação por que passou todo esse grupo de palavras. Proudhon, ao conceber uma lei de equilíbrio atuando no interior da sociedade, repudia a autoridade por considerá-la não como uma amiga da ordem, mas sua inimiga, e, ao fazê-lo, devolve aos partidários do autoritarismo as acusações lançadas contra os anarquistas, ao mesmo tempo que adota o título que espera tê-lo livrado do descrédito.

Proudhon vivia voluntariamente isolado do mundo político do século XIX.

Ele não desejava ter seguidores, rechaçava com indignação as sugestões de que teria criado qualquer tipo de sistema e é quase certo que se alegrava pelo fato de durante quase toda a sua vida ter aceito o título de anarquista em virtual isolamento. Mesmo seus discípulos mais chegados preferiam ser chamados de mutualistas, e foi só nos últimos anos da década iniciada em 1870, depois do rompimento entre os discípulos de Marx e Bakunin, ocorrido durante a Primeira Internacional, que esses últimos – que eram, indiretamente, discípulos de Proudhon – começaram, a princípio com certa hesitação, a intitular-se anarquistas.

É a idéia geral proposta por Proudhon em 1840 que estabelece uma ligação entre ele e outros anarquistas surgidos mais tarde, como Bakunin e Kropotkin, e também com certos filósofos que viveram antes e depois dele, como Godwin, Stirner e Tolstoi, que criaram sistemas antigovernamentais sem aceitar a designação de anarquistas; e é nesse sentido que irei tratar o anarquismo, apesar de suas muitas variantes: como um sistema de filosofia social, visando promover mudanças básicas na estrutura da sociedade e, principalmente – pois esse é o elemento comum a todas as formas de anarquismo -, a substituição do estado autoritário por alguma forma de cooperação não-governamental entre indivíduos livres.

Fonte: [ yoda sincero ]

O Cara

Eu estava tranquilamente em meu escritório, limpando os restos de pólvora do meu 38, e imaginando qual seria o meu próximo caso. Gosto muito dessa profissão de detetive particular e, embora ela me obrigue de vez em quando a ter as gengivas massageadas com um macaco de automóvel, o aroma das abobrinhas até que faz a coisa valer a pena. Sem falar nas mulheres, nas quais não costumo pensar muito, exceto quando estou respirando. Assim, quando a porta do meu escritório se abriu e uma loura de cabelos compridos, chamada Heather Butkiss, entrou rebolando e dizendo que posava para determinadas revistas e que precisava de minha ajuda, minhas glândulas salivares passaram uma terceira e aceleraram. Estava de minissaia e usava uma camiseta justa, tinha mais curva do que uma tabela estatística e seria capaz de provocar uma parada cardíaca até num caribu.

“O que quer que eu faca, meu bem?” – perguntei logo, para não criar maiores intimidades.
“Quero que encontre uma pessoa.”
“Uma pessoa desaparecida? Já tentou a polícia?”
“Não exatamente, Sr. Lupowitz.”
“Pode me chamar de Kaiser, meu bem. OK, quem e o cara?”
“Deus.”
“Deus?”
“Isso mesmo. Deus. O Criador, o Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente e Onipotente. Quero que O encontre para mim.”

Olhem, já tive alguns malucos no escritório antes, mas, com uma forma física daquelas, você é obrigado a ouvir.

Continuar lendo