Verdade, Bondade, Liberdade; segundo Rubem Alves

bolhas de sabão

Felicidade é discreta, silenciosa e frágil, como a bolha de sabão.
Vai-se muito rápido, mas sempre se podem assoprar outras.

Quem é rico em sonhos não envelhece nunca.
Pode até ser que morra de repente.
Mas morrerá em pleno vôo.
O que é muito bonito.

Eternidade é o tempo quando o longe fica perto.

Não quero nem subir para os céus, nem progredir para frente.
Quero mesmo é voltar para os lugares e os tempos que amei e perdi.
A alma é o lugar da saudade.
Velhice é quando o rio se prepara para converter-se em mar.
Para tudo há um tempo.
Mas Deus colocou o coração do homem para além do tempo, na eternidade.

Seremos sábios quando nos tornarmos crianças:
Essa é a essência da sabedoria bíblica.
Deus é alegria.
Uma criança é alegria.
Deus e uma criança têm isso em comum:
Ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos.
Deus vê o mundo com olhos de criança.
Está sempre à procura de companheiros para brincar.

Eu poderia ter sido jardineiro…
Como não fui, tento fazer jardinagem como educador, ensinando às crianças, minhas amigas, o encanto pela natureza.
O jardim é a face divina da nostalgia que mora em nós.
Jardins bonitos há muitos, mas só traz alegria o jardim que nascer dentro da gente.

Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro.
Esperança é quando, sendo inverno do lado de fora, a despeito dele brilha o Sol de verão no lado de dentro.

Já tive medo da morte.
Hoje não tenho mais.
O que sinto é uma enorme tristeza.

Concordo com Mario Quintana:

“Morrer, que me importa?
O diabo é deixar de viver.”

A vida é tão boa! Não quero ir embora…
A vida, para ser bela, deve estar cercada de verdade, de bondade, de liberdade.
Essas são as coisas pelas quais vale a pena morrer.

Verdade, Bondade, Liberdade…

A beleza acontece quando a eternidade toca o tempo.
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Rubem Alves

Palavras Especiais

// reaprendendo o significado de algumas palavras

Alice

SOLIDÃO é uma ilha com saudade de barco.

SAUDADE é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

LEMBRANÇA é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

AUTORIZAÇÃO é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

POUCO é menos da metade.

MUITO é quando os dedos da mão não são suficientes.

DESESPERO são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

ANGÚSTIA é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

AGONIA é quando o maestro de você se perde completamente.

PREOCUPAÇÃO é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

INDECISÃO é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

CERTEZA é quando a idéia cansa de procurar e pára.

INTUIÇÃO é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

PRESSENTIMENTO é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

RENÚNCIA é um não que não queria ser ele.

SUCESSO é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

VAIDADE é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

VERGONHA é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

ORGULHO é uma guarita entre você e o da frente.

ANSIEDADE é quando faltam 5 minutos sempre para o que quer que seja.

INDIFERENÇA é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

INTERESSE é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

SENTIMENTO é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

RAIVA é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

TRISTEZA é uma mão gigante que aperta seu coração.

ALEGRIA é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro.

FELICIDADE é um agora que não tem pressa nenhuma.

AMIZADE é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

DECEPÇÃO é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

DESILUSÃO é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

CULPA é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

PERDÃO é quando o Natal acontece em Maio, por exemplo.

DESCULPA é uma frase que pretende ser um beijo.

EXCITAÇÃO é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

DESATINO é um desataque de prudência.

PRUDÊNCIA é um buraco de fechadura na porta do tempo.

LUCIDEZ é um acesso de loucura ao contrário.

RAZÃO é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

EMOÇÃO é um tango que ainda não foi feito.

AINDA é quando a vontade está no meio do caminho.

VONTADE é um desejo que cisma que você é a casa dele.

DESEJO é uma boca com sede.

PAIXÃO é quando, apesar da palavra “perigo”, o desejo vai e entra.

AMOR é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não! Amor é um exagero… também não. É um desadoro… Uma batelada? Um exame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Talvez porque não tivesse sentido,
talvez porque não houvesse explicação,
esse negócio de amor não sei explicar.
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Adriana Falcão

Meus sinceros votos de Ano Novo

Ninjai

Você vai me desculpar, mas nesse ano novo não lhe desejo muitas conquistas. Lhe desejo apenas o aprendizado diário da apreciação do caminho, e que mesmo que as conquistas sejam poucas, isso não importe muito, pois o caminho por si só já é um presente.

Além disso não lhe desejo grandes realizações. Essas coisas grandes demais que para serem atingidas demandam uma ralação da pele, um engrossamento do couro, um esquecimento de si mesmo, uma robotização dos ritmos humanos.

Lhe desejo apenas olhos atentos para ver as pequenas conquistas diárias: um sol que nasceu, um amigo que (re)apareceu, um bicho que lhe sorriu.

Também não desejo que todos os seus sonhos se realizem.

Desejo sim que você continue a aprender a cultivar sonhos e incentive a fábrica que os produz dentro de você.

Desejo que você saiba que o sonho em si já é suficiente para inundar um coração. E que uma vida com muitas realizações e poucos sonhos não tem graça nenhuma.

Não desejo também para o seu ano novo muita paz. Essa paz mansa, de quem consegue descansar a cabeça, ligar a televisão, se cercar de tudo que é fácil e próximo da mão e achar que o mundo está resolvido. Não lhe desejo essa paz que pode ser a morte em vida, que é uma redoma feita de medos lhe salvaguardando do mundo.

Também não lhe desejo amor. Esse amor que seca, que lhe faz sedento, que é uma busca de algo ou de alguém que lhe sacie, complete, ou que lhe traga vantagens. Não desejo amor para quem ainda não sabe amar, desejo antes outras coisas.

Como por exemplo, lhe desejo individualidade. Que você tenha ou crie tempos para se desenvolver enquanto pessoa, para enriquecer a própria alma. Que você encare a busca do autoconhecimento, sozinho. Porque é a partir do conhecimento profundo de si mesmo que nasce a compreensão profunda do outro. E o mundo parece estar precisando tanto de pessoas que se compreendam.

E por isso também lhe desejo solidão. Porque essa é a nossa condição natural, somos antes de tudo um universo em si. Então desejo que você saiba colorir o seu próprio universo e tenha momentos de profundo prazer na companhia de si mesmo.

Desejo finalmente que você sinta muita paixão, que seu sangue borbulhe, seus sentidos agucem, sua temperatura suba. Mas desejo que você sinta essa paixão avassaladora não por pessoas, mas pela própria vida.

– Clara Baccarin
(*) editado