Vá até o final

2013-07-09-rollthedice

Charles Bukowski

Fonte: [ Zen Pencils ]

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O Seu Amor

O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é
Ser o que ele é.

(O Seu Amor – Doces Bárbaros)

Queremos saber

Queremos saber,
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes dos sertões
Queremos saber,
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos, de fato, um relato
Retrato mais sério do mistério da luz
Luz do disco voador
Pra iluminação do homem
Tão carente, sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do senhor
Queremos saber,
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
Queremos saber, queremos saber
Queremos saber, todos queremos saber

(Queremos saber – Cássia Eller)

Triste sina da menina que sabia que tinha vagina

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Crucificaram a menina!
Os jornais a rotularam
de coitada, “tadinha”.

O grande mal
que fez ao mundo
foi ter nascido
– Imagina só!?
Com uma vagina!

Aí logo veio ele,
veloz e mordaz,
como todo pensamento imundo,
carcomido pelo egoísmo,
carregando algemas,
sentimentos hipócritas de penas,
se esgueirando pelos becos,
serpenteando, sorrateiro…

Que peitos tinha aquela menina!
“- Última moda, comprados em Polywood”,
… … … … … … … [ disseram… ]
Conservadores atentos mandaram, claro,
botar sutiã, camisa, colete, burca, grades…
Tapar aquela provocação acintosamente maçã.

Que cabelos naturais e belos ela tinha!
Logo deformados com chapinha!
Logo descaracterizados com tintas!
A vizinha confirmou que bonito e belo
é cabelo preto, liso e brilhoso,
leu no jornal, passou na TV,
aquele velho e sempre anônimo
… … … … … [ “disseram”… ]

Mas que bunda tinha aquela menina!
Normal, redonda, jovial…
Diziam as línguas de lamber selos
de cartas sem remetentes,
que ela era, tadinha…
esforçada, retardada,
ou malhada de academia…

E as roupas?
Que roupas aquela menina vestia!
Vestes de moda, saias de roda,
de grife, de esquife,
de gente que tem cacife…
Para bancar ilusões.
Dessas que fazem a imaginação voar,
e beatas de rendas a praguejar.

E os sapatos?
Para cada humor um par diferente,
como se trocasse de sonhos
desejos deturpados,
… príncipes encantados,
… … consumismos transloucados…
– dia após noite…
… noite após dia!

Tudo naturalmente falso,
abusados cotidianos absurdos,
dissimulados enganos,
que ela – absorta – não percebia,
não sabia que nada disso lhe cabia.

Falso! Tudo menos o olhar…
Aquele olhar perdido, triste,
lapidado pela constante decepção.

Alguns diziam que não,
que ela era carismática,
– demais –
que ela era extrovertida,
– demais –
muito “dada” a fazer bagunça
com os corações alheios
… [ mas nunca falavam dos grilhões ].

Só que aí, nesse meio
de panças e balanças,
dietas e salões,
como um belo radiar de dia,
cansada do fardo imerecido
de elogios maquiadamente sinceros,
a curiosidade foi mais forte
decidiu escolher sua própria sorte.

– Ela abandonou o castelo!

A coceira, o arrepio…
finalmente liberto o tesão…
Ela descobriu…
“– tadinha”
que podia dizer sim,
que podia dizer não.

Cega e surda aos galanteios
quase sempre interesseiros
de nobres cavalheiros
aprendeu enfim
a mais nobre das lições:

“Amai-vos uns aos outros
como a si mesmo.
Como a si mesma?”

Ela aprendeu a amar a si mesma!
A ter prazer em sua própria companhia…
A viver sem depender de marido…
A sofrer sozinha e sem medo,
sem obrigação de procurar
“bom partido”…

Daí vieram os protestos:
– Crucifiquem-na!
– Joguem-na aos leões!
– Devorem sua carne!
– Tapem a boca provocadora!
– Calem sua mente indecente!

[ De nada adiantaram os apelos,
muxoxos e censuras… ]

– Faça dieta!
– Penteie esse cabelo!
– Tira a mão daí!
– Fecha essas pernas!
– Ele não serve para você!
– Que tal comprar uma bicicleta?

Lá foi ela,
viver sua vida.
Liberta!

Nos confessionários,
ao longo dos anos
ainda se ouvia
saudosos murmúrios machistas:
“que carnes, que curvas,
que peitos tinha aquela menina…”

Iluminada sina
daquela menina
que finalmente sabia
o poder que tinha
a sua vagina.

(Anderson Porto)

Flores do mais

ana_cristina_cesar

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais;
devagar
peça mais
e mais e
mais.

(Ana Cristina Cesar)