Comandos em Ação

Como memória é uma coisa que falha, venho tentando buscar lembranças que mantenham viva a chama dos ensinamentos de meu pai, para compartilhar com os demais alguns exemplos que, creio, aprendi com ele. E vou tentando, na medida do possível, ensinar ao meu filho.

O ano era 1985, talvez 86. A novidade da época era uma coleção de bonecos e carrinhos, chamada Comandos em Ação, acredito que vieram para substituir o antigo boneco Falcon, não lembro ao certo. Eu e meu irmão começamos a disputar quem conseguia comprar mais bonecos e carrinhos, tinha até helicóptero e barcos…

Morávamos numa casa repleta de árvores, um quintal de terra, bem grande. Eram cinco mangueiras, jabuticabeira, árvore-do-viajante, goiabeiras, dentre várias outras… Sabe aquela sensação gostosa de sombras e raios de sol, alternando-se ao sabor dos ventos? Era ali que passávamos boa parte das tardes, brincando…

Depois de algum tempo economizando mesadas, juntando com presentes de comemorações e lavagens de carros de vizinhos, conseguimos juntar uma certa quantidade de bonecos, jipes, tudo que fosse possível comprar da tal coleção. Faltava criar umas “bases inimigas” para colocar os bonecos e carrinhos. A bricadeira seria fazer uma guerra entre as bases.

Começamos a construção. Eram duas, longe uma da outra, minha e do meu irmão, cada um com seus Comandos…

Sempre gostei de maquetes e miniaturas, então comecei a construir a minha fazendo um pequeno amontoado de terra, um morrinho, que lembrava de longe aquele do filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”. Coloquei uma lata vazia de pêssegos no meio e enchi dágua. Quando o sorveteiro passasse na rua, pediria algumas pedras de gelo seco, para simular um vulcão…

Meu irmão usou algumas caixas de isopor, cavou alguns buracos para fazer trincheiras, fez uma garagem substerrânea para os carros, fez pontes de palitos de picolé e papelão – e eu, claro, ajudando…. Afinal, irmão mais novo, cinco anos de diferença, ele devia ter uns 9 ou 10 anos.

A brincadeira da construção das bases levou tardes e mais tardes, por dias seguidos. Já tinha se transformado numa “competição” para ver qual base ficava mais bonita, mais bem equipada, melhor decorada com galhos de plantas, melhor construída… Isso tudo, sempre acompanhando de longe nosso pai, que insistia, reclamando, para que tampássemos os buracos, pois “trazia má sorte”. Cavar buracos no quintal era presságio de alguém na família iria morrer, dizia ele. E ele cria.

Passamos a semana entretidos, construindo as bases e, sexta à noite, depois de ouvir mais uma reclamação sobre os buracos que tínhamos feito no quintal, fomos dormir, torcendo para que o dia seguinte fosse um sábado de sol, para que pudéssemos, finalmente, brincar de guerra com os Comandos em Ação.

Na manhã de sábado acordei de sobresalto, ouvindo barulhos no quintal. Onomatopéicos “Nhéeeaaaaaammmmmm…” seguidos de explosões. Alguma coisa estava acontecendo!! Acordei meu irmão e corremos para fora de casa.

A cena:

– Papai estava caminhando, ao redor das bases, segurando um aviãozinho de plástico em uma mão, com um cigarro acesso, preso entre os dedos. No bolso da camisa, um saco de bombas “cabeção-de-nego”. Ele pegava uma bombinha, acendia no cigarro, passava com o avião por cima de uma base, fazia “Nhéeeeaaaaaaammmmm” e soltava a bomba, depois saía… e BUMMM !!! Fumaça pra tudo quanto que é lado. Cada explosão detonava uma parede, um carrinho, uma ponte…

Ele virou-se pra gente e disse: “ — Ataque aéreo! “; e riu muito, aquele sorriso amarelo e debochado, caindo na gargalhada…

— Bombardeiros atacam melhor na parte vespertina da manhã!“; ensinou ele, soltando mais uma bomba em cima das bases. Era umas 5 da manhã…

Nunca esqueceremos deste dia. Também nunca mais fizemos bases ou buracos no quintal… rsrsrsrs…

Esse era o espírito dele: galhofeiro. Adorava ensinar coisas não pela palavra, mas pela ação, de preferência com muito bom humor.

Agora… Cá pra nós?

Contando a história desse episódio para os amigos e outras pessoas, me veio a dúvida, que ficou na cabeça a martelar: será que ele só queria era participar da brincadeira?

Nunca saberei, porque nunca perguntei.

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