Recados ( conversa de boteco )

Não sei como hoje aguentou
ficar à bruma e nada fazer,
e sem fazer nada, contar pro amigo
como foi que aquela mulher
te meteu em tanta encrenca.

– Caramba! Mulheres são porres,
daqueles que no dia seguinte
se transformam numa baita cefaléia.
— E como dói! —

Amigo: – Rapaz… Não sei ao certo,
nem sei o porquê,
como é que todo mundo é melhor que você,
se nem ao menos tenta, nem ao menos faz?
E sem fazer se arrebenta, não têm paz,
e aquele babaca, que não tem o que fazer,
a beija, a conquista, sem você perceber!

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Filho

Escrevi um livro
De páginas mal escritas
De um parco português.

Plantei uma árvore
Muito mais até…
Plantei uma semente.

O início de um ciclo
fim de um passado
o começo de uma colheita.

Quis todas as aventuras
que mal cabiam na minha carteira
E o suspense do final
pertence ao mistério da vida

E ele vai estar nela!

Tenho hoje
Todos os presentes do mundo
reunidos em um só.

Que é fonte?
Todos sabemos…
Que é força?
Que é vida?
Que é paz em guerra!

Hoje é uma confusão…
Hoje é uma, por que não, hoje são
sentido e afirmação
de tudo que já foi dito antes.

Por palavras, frases,
alegrias e vontades
e é, e foi, e sempre será.
Elegia em contraste,
Epitáfio do sol!

Inquisição

Quem disse que existe infinito?
— Morte ao blasfemador!

Que somos perfeitos?
— Morte ao mensurador!

Que somos felizes?
— Morte ao conquistador!

Que somos incapazes?
— Morte ao usurpador!

Que somos matéria?
— Morte ao professor!

Que somos cristãos?
— Morte ao criador!

Quem disse que existe energia?
Que existe magia?
Que existe pecado?

Quem disse que existe vida?
— MORTE!

Na beira da praia

Essas últimas noites têm sido horríveis.
Sem sal, sem beijo, sem queijo,
goiabada ou pão.

… … Esses últimos dias têm sido torturantes,
… … Marcantes de tão vulgar monotonia.
… … Areia de praia, maresia.

Essas últimas tardes têm sido de solidão.
Barracão de samba sem carnaval.
Jornal ao vento em terra abissal.

… … Essas últimas horas têm sido esperança
… … Dos nossos lábios se encontrando novamente
… … da saudade apunhalada, morta para sempre.

Esses últimos minutos têm sido eufemistas
Surrealistas, utópicos, abstratos, falidos.
E promessas, e dúvidas, e dor.

… … De tristeza foi este último segundo
… … Estava sentado na beira do mar pensando
… … Fechei os olhos e mergulhei chorando.

Sambinha de amor

E a gente chora, chora, chora…
E ela diz que vai embora,
e que nunca mais irá voltar.
Então a gente senta e descansa.
Passa o tempo e a fera amansa.
Ela volta e diz que não demora,
só veio pegar as coisas e logo, logo
[ vai embora ]
Mas no meio da despedida ela pára
[ pra te abraçar ]
Um beijo desfaz todo o orgulho besta
E tudo vira risada e festa
Porque hoje é sexta!

Holocausto

Hoje eu vi a cor
do céu cinzento antes azul
Deste caíram raios
que cortaram o dia em cada
[canto]
E todas as horas atrasaram
E a noite chegou cedo.

As sombras foram dormir
Os pássaros foram para o sul
A voz tornou-se grito
A noite crispou-se em dia.

Hoje eu vi a cor do Holocausto
Dos cogumelos negros que:

a) Nascem nos campos?
b) De uma bomba nuclear?
c) Do vinho amargo
d) descendo a garganta?

Um brinde

Ao teu sorriso
Aos teus lábios vorazes
Aos teus cabelos negros e melados.

Ao teu sorriso.
À tua risada franca, sincera.
À tua pele branca e tenra.

Ao teu sorriso.
Aos teus seios perfeitos e condizes.
Aos teus olhos castanhos e felizes.

Ao teu sorriso.
À tua estatura média, suficiente.
Aos teus ombros, às tuas costas,
À teu quadril, à tua cintura.

Ao teu sorriso.
Ao teu tornozelo, às tuas coxas,
À tuas pernas, lisas, macias,
deliciosas para o pecado.

Ao teu sorriso.
Ao teu sexo, ao teu corpo,
À tua mente sadia.

Ao teu sorriso!